Assistência Social e Capitalismo não precisam estar em guerra: podem dar o abraço da paz

24/02/2009 19:08

 Adolpho Lindenberg

A procura do lucro, se contrapõe aos atos caritativos?

Quando ouvimos as acusações dos setores progressistas contra o capitalismo por ser um sistema baseado no egoísmo, na voracidade do lucro, e desinteressado pela sorte dos carentes, marginalizados e excluídos, muitas vezes nos vem à mente a figura do banqueiro ou executivo de multinacionais, aferrados aos balanços e estimativas financeiras, mas inteiramente surdos aos pedidos de socorro dos necessitados. Até que ponto este quadro é verdadeiro? A procura do lucro, as leis severas da concorrência, as transações financeiras rigorosas, se contrapõem aos atos caritativos, à justiça social e à benquerença entre os homens?

"Progressistas" sempre dispostos a satanizar o capitalismo

Estas perguntas estão por trás das disputas entre os defensores do direito de propriedade, da livre iniciativa e da economia de mercado, de um lado, e, de outro, os social-democratas de velho estilo, os progressistas e os ecologistas radicais, sempre dispostos a satanizar o capitalismo.

Ser solidário, tarefa do capitalista e não do capitalismo

Para analisar os males do capitalismo com isenção de ânimo -tarefa quase impossível nos dias de hoje- convém lembrar que a função específica de um sistema econômico é produzir riquezas; e com elas, gerar lucros, pagar salários e impostos. Nisso não existe demérito algum.

Do mesmo modo, a tarefa específica do advogado é defender seus clientes e não atender aos necessitados. Fora da profissão, pode o grande advogado ser um homem compassivo e esmoler. Aliás, é louvável que seja. A assistência social, tarefa indispensável numa sociedade bem organizada e próspera, não deve ser de responsabilidade dos produtores, enquanto produtores, mas enquanto homens compassivos ou cristãos, obedientes aos conselhos evangélicos de socorrer o próximo.

Distinguir entre produzir e distribuir

A resposta, portanto, a nosso ver, está na distinção entre o ato de produzir e o de distribuir. Não podem ser confundidos, são de natureza diversa, cada um deles obedece a princípios morais próprios. Mais precisamente, a ênfase é diferente. A ética dos homens, enquanto produtores e comerciantes, prescreve que eles sejam diligentes, temperantes, honestos e respeitosos dos direitos de seus clientes e competidores. Nisso, aliás, age segundo o bem comum. Adam Smith já dizia, e com razão, o homem beneficia a sociedade ao trabalhar visando o lucro; a geração da riqueza é um bem social.

Éticas produtiva e caritativa

Os atos assistenciais são posteriores ao seu ganho, e a ética que os deve presidir se distingue da ética produtiva. Uma vez de posse dos lucros, rendimentos e salários, o homem está apto a gastá-los consigo mesmo, com sua família, parentes, amigos e dependentes, de acordo com seus hábitos morais. Está, igualmente, em condições de assistir aos carentes, deixar legados para entidades filantrópicas ou caritativas, etc.

Magnanimidade versus prepotência

A ética dos homens, enquanto distribuidores de seus bens, determina que sejam sábios, caridosos, magnânimos, benquerentes, atentos às necessidades de seus próximos. E, portanto, não devem ser egoístas, avarentos, injustos ou prepotentes.

Em outras palavras, a práxis produtiva e a práxis distributiva são totalmente diversas. A práxis distributiva pertence a outro universo, ao universo da caridade, da solidariedade, do desejo de amparar os mais carentes. Nesse contexto, a preocupação não é a quantidade dos recursos a serem amealhados, mas os critérios de como gastar e de como socorrer o próximo.

A reta procura pelo lucro nada tem de pecaminoso

Um bom exemplo do que estamos dizendo é a análise do modus operandi dos responsáveis pelas finanças das entidades que se dedicam à assistência social. Os ecônomos das ordens religiosas devem dirigir as finanças e as demais atividades econômicas do convento com a mesma argúcia, objetividade e empenho com que os banqueiros e executivos administram suas empresas. E, assim agindo, não estão infringindo seus votos de pobreza, nem agindo contra a caridade.

O discernimento dos tesoureiros de entidades assistenciais, ao buscar a melhor aplicação para suas economias, em nada difere do cuidado com que os administradores das grandes corporações determinam os destinos econômicos de seus conglomerados. Dizem que os templários foram os primeiros banqueiros da Europa, e foi graças ao sábio manejo dos empréstimos feitos a reis e senhores feudais que a Ordem do Templo se tornou riquíssima, muito embora os cavaleiros continuassem pobres.

A reta procura pelo maior ganho e pelo lucro, por conseguinte, em si mesmo, nada tem de desonroso ou pecaminoso.

Âmbito doméstico

Essa situação se reflete no âmbito doméstico. Os chefes de família devem gastar com discernimento, morigeração e segundo uma ordem de prioridades. Quanto devem gastar consigo, com sua mulher, com seus filhos? Devem reservar uma verba para atos caritativos? Quanto? Impossíveis aqui respostas exatas e quantificadas. Poderíamos enunciar o preceito genérico de que as pessoas devem procurar atender primeiramente aos interesses de seus familiares mais próximos, depois socorrer parentes e amigos passando por dificuldades e, depois, dar esmolas e contribuir para o sustento de entidades assistenciais; finalmente ajudar com dinheiro ou participar ativamente dos trabalhos comunitários.

Não confundir alhos com bugalhos

Finalizando, convém observar que críticas aos banqueiros e executivos modernos podem ser feitas sempre que eles se mostrarem materialistas e negligentes no socorro aos necessitados, mas não pelo fato de terem passado suas vidas gerindo negócios, estudando balanços e planos financeiros, na busca do maior lucro para seus negócios. Esse cuidado -não é só cuidado, é obrigação que nasce da justiça e da objetividade- ajuda a pôr cada coisa em seu lugar. Não confundir alhos com bugalhos. E assim, os negócios podem prosperar, cresce a riqueza e ficam muito maiores as quantias de dinheiro que podem ser usadas no atendimento aos necessitados.

Mais capitalismo, mais assistência social

A propósito, lembro aqui um exemplo frisante: o contraste, brutal com freqüência, entre os padrões de vida e de assistência social existente entre os países livres e os de economia estatizada. Se compararmos a Inglaterra de antes do governo de Margaret Thatcher com o que ela é hoje, a Alemanha Oriental com a Ocidental, a Coréia do Norte com a do Sul, e assim por diante, teremos um quadro vivo de tudo o que acima foi comentado.

Sem produção abundante, a assistência social fica prejudicada

Sem produção abundante, a assistência social é mirrada e fica muito prejudicado o exercício da caridade. E isto por quê?

Pela seguinte mecânica: no capitalismo, a capacidade de crescimento constante dos capitais reinvestidos constitui a viga mestra do progresso econômico. Na medida em que o processo de capitalização das empresas se intensifica, enriquecem-se os países, elevam-se os padrões de vida da população, torna-se viável a formação de superávits necessários para uma efetiva assistência aos carentes. A observância dessa seqüência de causas e efeitos é, assim, essencial para se compreender a razão pela qual os países do Primeiro Mundo, isto é, os capitalistas, serem aqueles que melhor atendem os carentes, marginalizados e desempregados.

Descristianização da sociedade, a grande causa da indiferença para com os mais pobres

No mundo atual, porém, o crescimento desordenado das grandes cidades, o anonimato, o materialismo da vida e o ateísmo prático corroeram os laços entre os homens. O enfraquecimento dos hábitos sociais de atendimento aos necessitados daí decorrente é o grande responsável pelos bolsões de miséria existentes em todos os países, inclusive nos mais ricos. O capitalismo pode ser acusado de ter contribuído para o crescimento exagerado de nossas cidades, mas as lacunas existentes no atendimento social devem ser imputadas não a ele, mas ao individualismo e à descristianização progressiva de nossa sociedade.

Solidariedade entre filhos do mesmo Deus

Numa sociedade cristã, de estrutura e vida orgânica, as pessoas participam normalmente de numerosas associações, clubes, sociedades caritativas ou religiosas, e o corpo social é uma verdadeira teia de relacionamentos solidários. Desse convívio social intenso nascem não só sentimentos de cordialidade e benquerença, como também vai sendo construído um complexo diversificado de obras sociais destinadas ao atendimento dos carentes.

No Brasil, houve tempo em que era hábito as senhoras da sociedade, como forma de exercerem uma atividade caritativa, trabalharem em creches, escolas, hospitais e asilos. Foi também hábito as pessoas ricas deixarem em seus testamentos um legado para as Santas Casas de Misericórdia. E em muitas cidades do interior o empenho em socorrer os necessitados -fruto belíssimo das tradições cristãs ainda vivas até há pouco- foi tão amplo e as entidades assistenciais tão numerosas que o atendimento aos carentes era bastante satisfatório. São formas de praticar a fundamental solidariedade que deve existir entre todos os homens, filhos do mesmo Deus.

Não procede, por conseguinte, a critica de que o capitalismo e solidariedade humana são incompatíveis, ambos podem se somar harmoniosamente.

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Adolpho Lindenberg é autor do livro "Os católicos e a economia de mercado", em que denuncia uma política com viés esquerdista que censura, marginaliza, "patrulha" ou encobre com um manto de silêncio as opiniões "politicamente incorretas", não afinadas com as ideologias de esquerda.


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