Darwin X Deus

24/02/2009 20:41

Entrelivros - Dezembro/2005

O desenvolvimento da biologia evolutiva gerou duas reações opostas nos Estados Unidos, ambas pretendendo desafiar sua legitimidade como explicação científica natural. Uma delas, baseada em convicções religiosas, recusa, de forma hostil, a ciência da evolução, contestando sua suficiência como mecanismo que explica a história da vida em geral e a natureza física dos seres humanos em particular. Os que sustentam essa visão propõem que teorias alternativas sejam ensinadas nas escolas americanas.

A outra reação, proveniente de estudiosos que buscam uma teoria universal da sociedade e da história humana, adota, com entusiasmo, o darwinismo, mas ameaça o estatuto de ciência natural dessa abordagem ao pretender que seu esquema explanatório dê conta não só da forma dos cérebros, mas também das idéias. The evolution- creation struggletrata do primeiro desafio, Not by genes alone, do segundo.

A luta política e cultural em torno da origem da vida e da espécie humana foi, durante um século, fenômeno tipicamente americano. Em julho passado, a disputa teve mais um lance: o cardeal austríaco Christoph Schönborn enunciou a doutrina da evolução do novo papado beneditino. Ele admite que os seres humanos e outros organismos têm um ancestral comum e, portanto, que as espécies atuais evoluíram de outras que não mais existem. O cardeal aceita, assim, o fato histórico de que a vida evoluiu. Mas distingue desse fato aceitável da evolução aquilo que ele caracteriza como a inaceitável teoria "neo-darwinista", segundo a qual a evolução seria redutível ao puro acaso e à necessidade. Ele rejeita a idéia de que no início Deus teria criado somente um mecanismo material dotado de poucas leis moleculares básicas e que o resto da história seria simplesmente a conseqüência desse mecanismo.

No processo evolutivo, segundo o cardeal, deve haver o desígnio divino. O próprio papa João Paulo II, que endossou a ciência da evolução em 1996, insistia que deve haver um princípio de finalidade e direção inscrito no processo material. Essa finalidade e direção interna são partes da postura cristã. Se a evolução é somente a conseqüência de mutações aleatórias que poderiam não ter ocorrido e se o destino subseqüente dessas mutações está sujeito somente à habilidade de seus portadores de se reproduzirem e de sobreviverem às catástrofes do meio que eliminam espécies e dão lugar a novas, então os seres racionais capazes de escolha moral poderiam não ter existido. Ora, sem tais seres o conceito de salvação é ininteligível. O cristianismo exige a emergência inevitável de criaturas capazes de pecar. Sem a história do pecado humano, não haveria Cristo.

Tudo o mais é secundário. O Vaticano não exige que se interprete literalmente a narrativa do Gênesis. A posição cristã mínima não requer o abandono da visão neo-darwinista a respeito do mecanismo da evolução. É possível argumentar, da perspectiva religiosa, que Deus estabeleceu as condições para a evolução pela seleção natural de mutações não direcionadas, mas que Ele reservou, para ser especialmente preservada e orientada, a linha ancestral destinada a se tornar humana.

Qual é, então, a fonte dos recorrentes episódios de agitação social e política contrária às afirmações da ciência evolucionista nos Estados Unidos? Uma resposta aparente seria a de que se trata de um produto da crença fundamentalista, que rejeita os compromissos fáceis da interpretação liberal e insiste que cada palavra do Gênesis significa exatamente o que diz. Mas aí está a dificuldade. Uma leitura literal do Gênesis nos diz que Deus levou somente três dias para criar o universo físico tal como este hoje existe, mas a física nuclear e a astrofísica apontam que o sistema estelar é muito antigo e fornecem instrumentos para a datação de fósseis e fragmentos de terra, alguns com centenas de milhares de anos. Mas, então, por que as escolas do Kansas não enfrentam pressão para mudar o currículo dos cursos de física? Por que a física pode difundir, sem oposição, sua abordagem atéia da evolução do universo físico? Há algo mais em jogo além da polêmica em relação à verdade literal das metáforas bíblicas.

O cristianismo exige a emergência inevitável de criaturas capazes de pecar. Sem a história do pecado humano, não haveria Cristo

Uma forma de entender a vulnerabilidade da biologia evolucionista aos ataques religiosos é pôr a culpa nos próprios biólogos. É essa a idéia de Michael Ruse em The evolution-creation struggle. Ruse, um conhecido filósofo da ciência, não é criacionista; ao contrário, aceita a explicação darwinista da origem e da evolução das espécies. Ele qualifica sua posição sobre a existência de um poder maior como "algo entre o deísmo e o agnosticismo", isto é, Ruse defende o princípio metodológico de que explicações naturais devem ser dadas aos fenômenos, mas não está absolutamente certo de que todos os aspectos do mundo não passam de partículas de matéria que interagem de acordo com leis naturais.

Sua principal polêmica não é com a biologia evolutiva como disciplina científica e técnica, nem mesmo com a tese de que a evolução é um processo puramente físico, mas com o que ele chama de "evolucionismo", o princípio de que haveria um processo universal de longo prazo no mundo biológico, social, cultural e político. Ele identifica o evolucionismo a uma forma de religião, retratando o conflito entre criacionismo e evolucionismo como uma luta entre duas doutrinas religiosas, uma batalha entre o pré-milenarismo, a doutrina de que a perfeição na Terra só será alcançada após a Segunda Vinda, e o pós-milenarismo, a visão de que Cristo, caso retorne, só o fará após o paraíso terrestre ter sido alcançado. Para Ruse, a biologia evolutiva foi permeada pela idéia de progresso, o que permite aproximá-la do "pós-milenarismo", embora não esteja comprometida com a idéia da Segunda Vinda.

Ruse está certo ao afirmar que noções de progresso eram recorrentes na biologia evolutiva, especialmente no século XIX. Entretanto, o que caracterizou a teoria evolutiva não foi a ideologia do progresso (nem mesmo em sua origem, no século XIX), mas a noção de mudança incessante, leitmotiv de uma era revolucionária.

Darwin evitou as implicações de progresso geral ou de direcionalidade. Vale notar que sua grande obra é intitulada, de forma não ideológica, A origem das espécies, e não "A evolução das espécies". Com isso Darwin evitava, intencionalmente ou não, qualquer implicação relativa ao desenvolvimento de uma trajetória progressiva.

Apesar da cautela de Darwin, noções de progresso e direcionalidade reapareceram na teoria evolucionista, especialmente nas discussões a respeito da mudança física e cultural do homem. Todavia, a moderna ciência empírica da biologia evolutiva não faz uso de idéias a priori de progresso. Isso pode parecer estranho, já que, supostamente, o processo de seleção natural torna os organismos mais aptos para os meios em que vivem. Assim, por que a evolução não resulta no aumento geral da adaptação da vida ao meio exterior? Não seria isso o progresso? A razão pela qual não há progresso geral é que os meios em que as espécies particulares vivem estão se alterando e, para os organismos, estão em geral piorando. Em geral, portanto, a seleção natural apenas mantém as condições. É certo que novos tipos de vida foram ocasionalmente explorados na evolução, mas cada espécie acabou sendo extinta (99,9% já se extinguiram) e nenhum modo de vida durará para sempre. A julgar pelo registro fóssil, uma espécie mamífera típica dura cerca de 10 milhões de anos: podemos esperar assim viver outros 9 milhões, a menos que, em conseqüência de nossa habilidade para manipular o mundo físico, nos extingamos bem antes ou inventemos algum modo extraordinário de adiar o inevitável.

 

Se admitirmos que a biologia evolutiva não está comprometida com a noção de progresso, então não poderemos aceitar a afirmação central de Ruse de que "a evolução e a criação constituem respostas religiosas rivais a uma crise de fé - são histórias rivais acerca das origens, juízos rivais sobre o significado da vida humana, conjuntos rivais de regras morais e, sobretudo, escatologias rivais".

A visão de que a biologia evolutiva científica pode ser transformada em uma religião gera em Ruse a seguinte preocupação: o emprego exclusivo de fenômenos naturais para explicar a história e a variedade de organismos pode ser uma "ladeira escorregadia", na qual os evolucionistas deslizarão, abandonando o terreno firme da metodologia, que Ruse aprova, para cair no pântano do naturalismo metafísico. Exigimos que a pesquisa científica seja elaborada com o emprego de mecanismos materiais que possam, pelo menos em princípio, ser observados na natureza, já que qualquer outro método nos levaria a um emaranhado de especulações não suscetíveis de teste, algo que liquidaria a ciência. Mas não devemos, segundo Ruse, confundir a regra metodológica com uma revelação de como o mundo realmente funciona. Talvez Deus esteja à espreita em alguma parte, mas não deixou qualquer sinal em nossos aparelhos e, por isso, somos tentados a pressupor que Ele não existe.

A atual luta em torno da evolução costuma ser interpretada, pelos defensores do darwinismo, como uma guerra cultural

Trata-se de uma preocupação de filósofo que não corresponde ao modo pelo qual as pessoas realmente adquirem uma visão da realidade. Algumas podem experimentar conversões em algum momento culminante da vida, outras uma crise de fé conforme amadurecem.

A atual luta em torno da evolução costuma ser interpretada, pelos defensores do darwinismo, como uma guerra cultural em que o criacionismo é parte da ideologia da direita, ideologia que pretende justificar a sociedade autoritária e tradicionalista e proteger os "valores tradicionais" contra os ataques dos revolucionários sociais. Mas a polêmica americana tem uma história complexa. Antes da Segunda Guerra Mundial, a ciência da evolução estava praticamente ausente dos currículos escolares americanos. Depois, a bomba atômica e, mais tarde, o aumento do financiamento público à pesquisa científica em resposta ao alarme causado pelo Sputnik soviético, geraram uma revolução no ensino da ciência e a evolução se tornou parte dos textos de biologia e do ensino da ciência nas escolas públicas, e assim permanece na maioria dos lugares.

Os adeptos do fundamentalismo tradicional começaram então uma ativa reação criacionista, que avançou lentamente até alcançar o destaque atual. Segundo pesquisas realizadas nos últimos 25 anos, cerca de metade dos americanos acredita que Deus criou o homem exatamente na forma que ele tem hoje em algum momento nos últimos dez mil anos. Recentemente, houve repetidas tentativas em Minnesota, Novo México, Ohio, Pensilvânia, Arkansas e Kansas de tornar o estudo de teorias que desafiam a biologia evolutiva parte do currículo científico obrigatório das escolas públicas. Uma dessas teorias, o "desenho inteligente", é uma variante do mito da Criação. O desenho inteligente (DI) foi bem planejado para contornar as restrições legais ao ensino do criacionismo bíblico nos Estados Unidos, restrições baseadas no dispositivo constitucional que exige a separação entre Igreja e Estado.

A teoria sustenta que o exame objetivo dos fatos da vida mostra que os organismos são complexos demais para terem surgido mediante o processo de acumulação de mutações aleatórias selecionadas naturalmente. Portanto, os organismos devem ter sido criados por um ser inteligente não especificado.

Ao mesmo tempo em que as forças religiosas tentavam aniquilar a biologia evolutiva negando sua verdade, cientistas procuravam fazer do darwinismo um modelo universal para compreender a dinâmica histórica e social. Os cientistas naturais sustentam um modelo de pesquisa científica que valoriza a aplicabilidade geral e a inclusão. Os "grandes" cientistas são os que, como Newton, formulam leis de aplicação universal, ao passo que os menores passam a vida dissecando fenômenos particulares. Para satisfazer a exigência de generalidade, o darwinismo deve explicar não só a evolução da estrutura física do organismo, mas também o comportamento individual e social do homem.

 

As primeiras tentativas de generalização foram simples extensões da teoria evolutiva biológica para os caracteres não físicos. Uma natureza humana universal foi descrita, incluindo propriedades como religiosidade, agressão, empreendimento e conformidade. Foram postulados genes para esses traços e inventadas histórias de adaptação para explicar por que a seleção natural fixou-os. A credibilidade de tais modelos, no entanto, foi prejudicada pela falta de evidência para a determinação genética dos traços e pela incerteza das tentativas de definir características "universais" da natureza humana.

Assim, a sociobiologia ingênua deu lugar à psicologia evolutiva, que evita os riscos de fazer previsões muito específicas e estuda a evolução dos mecanismos comportamentais subjacentes à atração sexual, ao medo de circunstâncias ameaçadoras, à coesão de grupo, à racionalidade etc. Tais explicações, todavia, não satisfazem as exigências de historiadores e sociólogos.


Modelos biológicos de mudança cultural e diversidade acabaram substituídos por modelos pseudobiológicos que usam a estrutura de explicação darwinista de forma metafórica e não literal. O darwinismo é uma teoria de base populacional que contém três afirmações. Em primeiro lugar, sustenta que há variação em algumas características entre os indivíduos de uma população. Em segundo lugar, essa variação é hereditária, isto é, a prole tende a se assemelhar mais com os ancestrais biológicos do que com os indivíduos que não têm relação de parentesco com ela.

No darwinismo moderno, o mecanismo da hereditariedade é a informação sobre o desenvolvimento contida nos genes que são passados dos pais para a prole. Em terceiro lugar, há diferentes taxas de sobrevivência e reprodução entre os indivíduos com características distintas, dependendo do meio habitado pelos portadores: é o princípio da seleção natural. A conseqüência da reprodução diferencial entre indivíduos com diferentes características herdadas é que a população, ao longo das gerações, tornase mais rica em algumas formas e mais pobre em outras. A população evolui.

As forças religiosas tentavam aniquilar a biologia evolutiva e cientistas procuravam fazer do darwinismo modelo universal

Os modelos darwinistas metafóricos do comportamento histórico e cultural não contêm genes, mas variantes culturais que surgem como mutações genéticas e que são, de alguma forma, difundidas diferencialmente ao longo do tempo nas mentes e instituições humanas, gerando a evolução cultural.


A primeira formulação desse modelo, elaborada em 1982 por Richard Dawkins, contém partículas elementares de cultura, chamadas de memes, que desempenham o papel de genes e que são difundidas em maior ou menor grau conforme a atração que exercem nos indivíduos. Os memes podem ser formas de pronunciar a letra "r", cores associadas ao luto ou a preferência por Lutero em vez do Papa. Segundo o modelo, os seres humanos são os portadores das partículas culturais, propagando-as por meio da comunicação, e o meio determinará quais memes serão bem sucedidos.

Há versões mais ou menos complexas dessa metáfora elementar original da evolução genética. A obra de Robert Boyd e Peter Richerson representa a versão mais nuançada e sofisticada, apresentada detalhadamente em Not by genes alone. O título pretende sugerir que a evolução cultural não é simplesmente semelhante à mudança evolutiva humana, mas é parte desta. Os autores começam enfatizando, de forma correta, que a cultura é parte da biologia humana, pois, de um lado, a evolução de estruturas neurais subjacentes aos estados psicológicos influencia no que as pessoas acreditam e percebem e, de outro, a cultura cria o meio em que se dará a futura evolução física por seleção natural.

 

Richerson e Boyd rejeitam o modelo simplista dos memes, mas são um tanto vagos em relação a como identificar a cultura ou sua estrutura. Os autores sabem que um aspecto da cultura mudará em reação e de acordo com a mudança de outros aspectos, que há uma complexa rede de dependência causal entre as várias partes da cultura. Mudanças tecnológicas, profissionais, educacionais, nas atitudes políticas, na divisão do trabalho doméstico e da responsabilidade dos pais, nas atividades de lazer, nos estilos de fala e vestuários estão vinculadas, sendo todas tanto efeitos como causas no interior e entre as gerações.

A invenção e a disseminação do computador são as causas diretas das principais mudanças nos padrões de educação e lazer. Os livros tendem a ser substituídos por bancos de dados on-line e por jogos computadorizados. Tais fatores geram novas ocupações e novos métodos de trabalho, mudanças no vocabulário e no volume e velocidade do intercâmbio entre indivíduos, bem como a possibilidade de que uma pessoa se comunique com várias outras sem a intervenção e o controle público. Cria-se assim a habilidade de comprar imediatamente uma vasta gama de bens e serviços e de acessar uma enorme quantidade de informação armazenada.

A questão mais importante é por que deveríamos afinal usar um modelo darwinista para estudar a história e a cultura

Todas essas mudanças retroagem sobre o desenvolvimento de hardware e software, amplificando os efeitos mencionados e criando novas formas de produção, comércio, comunicação e educação. A dificuldade que essa complexidade apresenta para a elaboração de modelos de mudança e diversificação cultural é que não há aí uma estrutura clara. A estrutura tem que ser inventada.

Na formulação de Richerson e Boyd, os elementos culturais, as idéias, gostos, linguagens e atitudes são propriedade de indivíduos, que os adquirem por meio de vários processos: imitação consciente e inconsciente de outros, ensino direto pelos pais, aprendizado na educação formal ou exposição a várias formas de comunicação. As mudanças na freqüência das variantes culturais em meio a populações específicas ocorrem mediante dois mecanismos básicos. Em primeiro lugar, há o viés próprio da transmissão dos elementos culturais: alguns elementos são mais populares, mais fáceis de aprender ou simplesmente mais freqüentes em meios às pessoas cuja cultura adquirimos. Em segundo lugar, de maneira puramente darwinista, os portadores de certas variantes culturais podem sobreviver melhor ou ter mais filhos. Mantidas constantes as demais condições, as crenças religiosas dos que se opõem à contracepção tendem a se disseminar como fogo. A taxa diferencial de reprodução e a influência da transmissão dependem, é claro, do meio, mas Boyd e Richerson reconhecem que o meio humano é, em grande parte, conseqüência da cultura e, portanto, a mudança cultural é tanto causa como efeito da evolução subseqüente.

O modelo tem algumas falhas. Uma delas é que boa parte da cultura de um indivíduo não é adquirida de outras pessoas. Outra falha é que nenhum modelo de evolução cultural explica o poder.

A questão mais importante é por que deveríamos afinal usar um modelo darwinista para estudar a história e a cultura. O modelo populacional que emprega noções como variação, hereditariedade e taxas diferenciais de reprodução foi especificamente elaborado para explicar determinados fenômenos naturais que tinham uma base empírica e mecânica bem conhecidas. O próprio Darwin, que desconhecia os genes e as leis da hereditariedade, sabia que os organismos eram reproduzidos somente por outros organismos, que as características físicas da prole se assemelham mais às de seus ancestrais do que às de outros indivíduos e que mais organismos eram reproduzidos do que os que sobreviviam até chegar à idade reprodutiva. Não havia nenhuma garantia de que seu modelo para a evolução fosse inteiramente correto, já que transmissão hereditária de caracteres adquiridos poderia se revelar verdadeira.

Os evolucionistas culturais não dispõem de um conjunto de fenômenos tão concretos. Não há nem mesmo acordo entre eles quanto à definição e descrição de seus objetos. Os argumentos oferecidos por Boyd e Richerson para a adoção de um modelo darwinista de mudança cultural são todos epistemológicos: o modelo favoreceria a obtenção de certas metas intelectuais, mas não se pode dizer que corresponde melhor aos fenômenos que pretende explicar. Comentando seus argumentos, os autores dizem, por exemplo, que "proporcionam ilhas de clareza conceitual em meio à complexidade e diversidade que ameaçam paralisar o pensamento", que "são fecundos para a pesquisa", que são "econômicos" para o pensamento e que "aumentarão as chances de descobrirmos generalizações úteis, apesar da complexidade e diversidade do comportamento humano".

O fato de grandes teóricos da história terem tentado e fracassado na formulação dessa teoria não impede novos esforços

 

Para uma obra que se pretende científica, é curiosa a idéia de que uma formulação teórica é desejável porque facilita a redação de artigos e livros que dão explicações simples a fenômenos complexos e diversos. Confunde-se aí "entendimento" no sentido fraco de formular enunciados coerentes sobre a realidade e "entendimento" no sentido de elaborar afirmações corretas a respeito da natureza. Isso torna a investigação da natureza um mero jogo intelectual, desarmando o cientista na luta contra o misticismo. Estaríamos mais próximos de uma teoria correta da mudança cultural se abandonássemos as tentativas de entender a história das instituições humanas por meio de analogias com a evolução orgânica. O que precisamos é de algo bem mais complicado, uma teoria da causalidade histórica derivada dos próprios fenômenos a serem explicados. O fato de grandes teóricos da história terem tentado e fracassado na formulação dessa teoria não impede novos esforços. Afinal, Darwin foi precedido por eminentes fracassos e mesmo ele não esclareceu tudo.  


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