Era da Angústia

24/02/2009 20:07

05/11/2005 - A Tarde

Marcelo Veras

Uma das maiores cisões do freudismo ocorreu precisamente quando Otto Rank publicou seu livro O traumatismo do nascimento, em que considera este traumatismo o substrato último da vida psíquica ou, em sua expressão, o “núcleo mesmo do inconsciente”. Podemos cotejar esta obra, que data de 1924 e, por conseqüência, marcada pelo pós-guerra, com o texto de Freud O mal-estar na civilização, de 1929. Constatamos duas diferentes versões da crítica ao hedonismo que florescia na época em que os dois textos foram escritos. Este hedonismo dominou o pós-guerra, esvaziando o sofrimento humano de qualquer sentido. Conhecemos o ponto de vista de Rank no último capítulo de seu livro, intitulado A ação terapêutica.

Sua proposta é uma ação terapêutica visando abolir a contingência do nascimento, promovendo a reconciliação do trauma inerente ao nascimento com a vida civilizada. O método consistiria em “livrar o doente de sua fixação neurótica, suprimindo ou atenuando o recalque primitivo... recorrendo à repetição do trauma do nascimento mediante a assistência de uma parteira experiente”.

Paradoxalmente, a própria possibilidade de se repassar pela experiência do nascimento invalida a tese de Rank. Não se trata aqui do mé phunai, “melhor não ter nascido”, frase proferida por Édipo na tragédia de Sófocles. Rank zomba da tragédia ao propor que o melhor é nascer duas vezes. Freud, neste sentido, é muito mais fiel ao trauma ao sustentar o caráter irreconciliável entre a liberdade do sujeito e a torrente civilizadora. No fundo, todo hedonismo tem um fundo rankiano. A regressão ao traumatismo do nascimento não visa à volta ao útero materno, trata-se da eliminação daquilo que faz sintoma para o sujeito na perspectiva de que é possível lançar os dados duas vezes.

Assim sendo, a referência ao livro Cândido, de Voltaire, que faz Freud no Mal-estar da Civilização, é a melhor resposta que ele pode dar a Rank. É possível constatar uma espécie de savoir y faire no final proposto por Voltaire. No término da história, tudo parece ter voltado a ser como antes na vida de Cândido. A sucessão de eventos traumáticos, cujo paradigma seria o famoso terremoto de Lisboa, não separa Cândido de sua amada Cunegonde. O que muda é o próprio estatuto de seu objeto de amor. Não há mais um segundo nascimento (o que seria voltar ao mundo em que vivia antes de suas viagens), sua amada tampouco é bela como no início da história, uma vez que ela foi raptada, prostituída e seduzida pelas riquezas que uma mulher pode conseguir vendendo seus dotes. Cândido termina sua odisséia com o otimismo, irônico sem dúvida, de que, mesmo no pior dos mundos possíveis, é possível ficar em casa regando seu jardim.

Encontramos nesta referência o germe da dificuldade moderna em distinguir a fronteira entre individualismo e autonomia. O individualismo decorrente do hedonismo moderno marca a cultura como regida pelo universo do consumo. Não é fácil, em nossos dias, separar quais são os bens oriundos da produção cultural e quais bens são oriundos do mercado de consumo. Esta fronteira diáfana segue as normas utilitárias que preconizam a maximização da felicidade mediante a minimização do sofrimento. Uma citação de Jean Guitton implica a raiz do hedonismo contemporâneo no próprio declínio da Igreja: ...a doença é o estado natural do cristão, quando ele tem saúde é aí que ele deve se espantar: que horrível proposição!
 
SENTIMENTO DE CULPA – Guitton chama a atenção para o fato de que a dor e o sofrimento não mais servem para expiar a culpa. Cessado o castigo divino, o progresso científico reedita a questão cínica sob nova roupagem: por que sentir dor se temos anestesia? Deste modo, a falta de sentido no sofrimento faz com que o mesmo seja visto como peça estranha a ser extirpada. Esta estratégia atual de fabricação do “sujeito feliz”, transformando o que lhe faz sofrer em objeto destacável, foi anunciada por Freud na oitava parte do Mal-estar na civilização. Nesta passagem, Freud interroga por que os pacientes não acreditam quando ele lhes fala de sentimento de culpabilidade inconsciente.   Observamos que sua preocupação ainda é atual, posto que a psicanálise é responsabilizada, sobretudo por alguns segmentos da psiquiatria biológica, por não poupar o deprimido do circuito da culpa, na contramão da ciência que isola cada vez mais a doença no corpo cadaverizado. A indagação freudiana espanta pela atualidade de sua colocação. Talvez, escreve ele, o sentimento de culpabilidade não seja mais do que uma variante da angústia. A era da depressão e da síndrome de pânico marcaria esta mudança da subjetividade de nossa época, que passaria da culpabilidade à “angústia diante do Superego”.

Podemos citar um exemplo recente. Michael Moore, em seu filme Tiros em Columbine, pergunta como pode uma sociedade que vive permanentemente se armando até os dentes para um possível ataque ficar tão surpresa com a chacina de colegiais promovida por dois adolescentes. A perplexidade e a impossibilidade mesma de reconhecer as motivações que são, contudo, mais do que evidentes, comprovam o sintoma desta cultura. A nação em prantos chocou-se com a falta de sentido na ação dos dois jovens, mas foi incapaz de reconhecer sua cumplicidade no crime. O enigma desta falta de sentido trouxe à tona a angústia de um povo que abandonou o sentimento de culpabilidade. Ou seja, entre a vergonha e a angústia, optou-se pela angústia.

Entre as modificações inerentes à época da inexistência de garantias universais e estáveis, a assunção das reivindicações jurídicas esculpiu uma nova identidade para o papel da vítima. Correlata à ascese da vítima, encontra-se a demanda de reparação dos danos como forma de restituir as garantias que nenhuma imago do Outro consegue mais sustentar. 

Estabeleceu-se um novo circuito da demanda que captura o sujeito moderno entre, por um lado, as vítimas de imperícia médica, violência urbana, abuso sexual ou exclusão social e, por outro lado, incontáveis comitês de éticas, ONGs, promotorias e militâncias políticas. 

Os efeitos se desdobram em inúmeros exemplos. O mendigo não mais é objeto da caridade como índice da providência divina, ele se inscreve no rol de excluídos que conclamam uma ação social. A nova sociedade, balizada pelos ideais do ter, tem horror ao não ter. Como conseqüência, presenciamos a proliferação dos movimentos dos Sem... (terra, domicílio fixo, partido político, etc.). Na área médica, a multiplicação dos processos por imperícia médica gera uma ironia digna dos médicos de Molière: teme-se mais a vítima do que o algoz.
 
TERRORISMO – Quem é este novo sujeito? Oriundo do mundo prêt à jouir, ele não mais se sente culpado por ter gozado demais dos objetos à venda no mercado. Ao contrário, a exigência contemporânea de desfrutar de tudo, cada vez mais e melhor, induz culpabilidade pelo fato de que ninguém terá gozado o suficiente (para Lacan, o superego não mais é o que impede o gozo e sim o que exige que o sujeito se extenue gozando). Ou seja, este mundo de excessos traz em seu bojo culpa e tédio. Não fosse a potente intervenção da indústria farmacêutica, expandindo uma cultura que ignora a subjetividade de qualquer afeto, a psicanálise apontaria a real dimensão do estrago.

Para além do luto, a reparação e a vingança não mais se inscrevem tragicamente como ação do herói, elas são exigências de uma outra ordem. Os atentados de Londres, Madri, assim como o 11 de setembro, mostram que não estamos na época das guerras. A guerra implica libido, implica amar seu inimigo a ponto de matá-lo. O terror, ao contrário, é extrair o gozo de suas próprias raízes. Deste modo, a angústia da presença do objeto marcaria nosso tempo promovendo um distanciamento da tragédia clássica. A morte de cidadãos banais, por cidadãos igualmente banais, é fonte de angústia, já que esta se caracteriza por irromper na cena sem aviso prévio e sem que medidas eficientes possam evitá-la.

Para Antonio Teixeira, é a prevalência dos efeitos do discurso da ciência em nosso mundo que autoriza um veredicto de inspiração kierkegaardiana; a modernidade perde em trágico o que ela ganha em desespero. O terrorista não é um Samurai praticando o Sepuku, tampouco um kamikase afrontando uma embarcação americana. Solitário em um vagão de trem, ele destrói o vizinho sentado no banco ao lado não por ser este um inimigo, e sim por ser uma cifra. Eis um ponto onde a psicanálise pode apontar novos enfoques. Não mais se trata de instruir o mundo na direção de uma guerra onde os duelistas, tal como no filme de Ridley Scott, se baterão até o final dos tempos. Não há mais sentido na guerra do bem contra o mal. O inimigo, portanto, não ocupa mais uma posição onde a identificação seja possível. O genocídio será mais bem executado na medida em que a culpabilidade for esvaziada do processo.

Um contraponto ao individualismo excessivo de nossa época estaria no modo como Camus decretou que a tragédia nos dias atuais é apenas coletiva. Para ele, esta incongruência seria nomeada de absurdo, ou seja, o reconhecimento da incompatibilidade entre a intensidade da vida material e a certeza da morte. Deste modo, a perda do sentimento trágico clássico, bem como o desenvolvimento das neurociências, contribuiu para forjar a expansão epidêmica, no mundo ocidental, das “nações depressivas”, expressão utilizada no final da década de 80 por ocasião do lançamento do Prozac.

Uma psicanálise somente será possível quando o acontecimento traumático atingir a dimensão trágica de revelar os impasses da condição singular de um luto que não se presta a identificações, conseqüentemente impossível de se inscrever na coletividade. No caso dos atentados recentes, passados os dias das manifestações em praça pública, cada um volta para casa com seus mortos. É no campo entre estas duas mortes, a morte real e a morte simbólica, que o psicanalista irá atuar. Este não irá propor mais objetos para consumo na sociedade definida por Gilles Lipovetsky como hipermoderna, ao contrário, ele pode tratar a angústia separando o sujeito de seus objetos, condição fundamental para que haja o desejo.
 

Marcelo Veras é psicanalista da Escola Brasileira de Psicanálise e diretor do Hospital Juliano Moreira de Salvador  


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