Espectro do capitalismo

24/02/2009 19:07

Emiliano José

Um espectro ronda o marxismo: o espectro do capitalismo. Não resisto à tentação de parafrasear Marx (na primeira frase do Manifesto ele afirmava que um espectro rondava a Europa, o espectro do comunismo) para sintetizar a discussão posta por Meghnad Desai no seu A vingança de Marx - A ressurgência do capitalismo e a morte do socialismo estatal. É um livro instigante. Representa uma espécie de contraponto ao espírito catastrofista que tomou conta de muitos autores diante da fase atual do capitalismo, dentre os quais, com destaque, é possível lembrar Robert Kurz, alemão, que publicou, entre tantos livros, O colapso da modernização.
  Desai analisa o capitalismo, seus defeitos e virtudes, mais as virtudes, e o faz baseado em ninguém menos que Marx. Não busca sustentação no Marx do Manifesto Comunista, para ele uma versão popular do marxismo. Ampara-se no cientista de O Capital. Talvez possamos dizer que o ponto de partida teórico de Desai, antes de se aventurar pela leitura de O Capital, seja o prefácio de Uma contribuição à crítica da economia política, também de Marx, relembrada pelo autor à pagina 67. Ali Marx defende a tese de que nenhuma ordem social jamais desaparece antes que todas as forças produtivas que acolhe tenham se desenvolvido e que novas relações de produção só podem surgir quando tenham amadurecido, no interior da velha sociedade, as condições materiais para a sua existência.

Aquele prefácio, lido hoje, parece profético. No passado, em especial a partir da Revolução Russa de 1917, aparecia como parte de uma teoria imatura, ingênua, como recorda o autor. O fim do século XX, no entanto, conforme Desai, só veio confirmá-lo. “O socialismo era prematuro, pois o capitalismo ainda não havia esgotado sua capacidade de crescimento” (p. 67). 

O Capital, diferentemente do Manifesto,não é uma obra visionária ou milenarista. “É um estudo crítico do funcionamento do capitalismo como modo de produção” (p. 109) e, importante, “não consegue contar uma história única sobre a dinâmica do capitalismo que, de algum modo, preveja o seu fim”. (p. 109). Marx, dirá Desai, nunca afirmou que o sistema capitalista não encontraria os seus limites, que, no entanto, são lógicos, não temporais. “Há ciclos, e há crises, mas elas têm subjacente um processo contínuo de crescimento e uma lucratividade que só em parte tende a diminuir”. (p. 109). 

Em Marx é forte a noção de que o capitalismo é o mais progressista de todos os modos de produção que existiram. Não há na teoria marxista a fixação temporal do fim do capitalismo. Desai lembrará também o Lênin do final do século XIX, envolvido no combate teórico aos narodniks - integrantes do Partido do Povo, defensores da idéia de que era necessário manter a estrutura de propriedade no campo russo, evitando-se introduzir a propriedade privada, em razão da existência de uma ordenação institucional voltada para a propriedade comum da terra.

Com esse raciocínio, os narodniks acreditavam que a Rússia “poderia saltar a horrível etapa do capitalismo e ingressar diretamente no socialismo, que exigia a propriedade comum”. (p. 134/135). Lênin não perdoará essa visão atrasada e vai combatê-la duramente. O desenvolvimento do capitalismo no campo representava a opção progressista.
 
GUERRAS - Estabelecida essa visão, Desai vai discutir o século XX. A I Guerra Mundial, iniciada em 1914, irá deter e reverter o curso da globalização capitalista, célere até ali. Entre 1914 e 1989 teria acontecido o que o autor chama de “desglobalização vingativa”, uma fase definida por ele como a do “capitalismo num só país”, (p. 146), contraponto da fórmula soviética do “socialismo num só país”. O capitalismo teria regredido à situação de um conjunto de economias separadas, com marco inicial em 1914. Na esteira da guerra, explode a Revolução Russa, em 1917, que parecia que não viera para durar salvo se houvesse uma revolução na Alemanha, que não ocorreu.

Mas a Revolução Russa sobreviveu e se o fez nos decisivos primeiros anos deveu-se ao talento, à capacidade dirigente, à obstinação de Lênin, embora não se possa desconhecer que boa parte do que ocorrerá à frente também será uma herança dele ou uma versão dramaticamente superdimensionada de um modelo autoritário e centralizador que irá redundar no desastre do final dos anos 80. O autor lembra que Rosa Luxemburgo, nos últimos anos de sua vida, cunhou a expressão “socialismo ou barbárie”. Com Stalin, “podia-se falar em socialismo como barbárie”. (p. 264).

Após a I Guerra, o capitalismo viverá uma péssima fase, experimentando o crack de 1929, seguido da Grande Depressão. Parecia, para a III Internacional, que “o Natal viria mais cedo” (p. 193), ou seja, que o fim do capitalismo estava à porta. Foi a II Guerra Mundial que “permitiu a reação do capitalismo” (p. 198), embora ainda à base do “capitalismo num só país”, segundo o autor. 

Depois de 1939 “seriam necessários cinqüenta anos para que a globalização retomasse o seu curso, iniciado no século XIX”. (p. 198). O fim da II Guerra representou o início do que ficou conhecido como a idade de ouro do capitalismo, embora essa idade de ouro estivesse muito perto “de uma festa exclusiva do clube dos países capitalistas desenvolvidos”. (p.285). 

Cresceu a reputação do capitalismo e simultaneamente a do socialismo, com a URSS fortalecida. No mundo capitalista, mesmo nas nações periféricas, parecia que a idade de ouro tornara-se “a forma normal do capitalismo, com crescimento e pleno emprego e o Estado assistencial em expansão” (p. 295), síntese da proposta de Keynes.

À idade de ouro do capitalismo, aliás, correspondeu, também, a uma idade de ouro do keynesianismo. O Estado de Bem-Estar recolheu muito das lições teóricas de Keynes, que entre o fim da II Guerra e o final dos anos 70, reinou soberano, em oposição às teses monetaristas, fundadas na lógica exclusivista do mercado, cuja figura emblemática era Friedrich von Hayek. 

Com as crises do petróleo de 1973 e 1979, a situação se modificou inteiramente. Na teoria e na prática. Inverteu-se o predomínio teórico - Keynes saía de cena, entrava Hayek e discípulos seus, como Milton Friedman - e ganharam peso e prestígio novas lideranças da direita, especialmente nos EUA (Ronald Reagan), Inglaterra (Margaret Thatcher) e na Alemanha (Helmut Kohl).

Agora, entrava em cena um aperto fiscal severo, gastos públicos controlados, combate rigoroso à inflação, nenhuma concessão a políticas públicas geradoras de empregos, nada de Estado assistencial. “Em toda parte os governantes puseram a repetir que os governos não criam empregos nem provocam o crescimento econômico, mas apenas propiciam as condições para que o setor privado possa criar empregos e aumentar a renda”. (p. 396). 

O capitalismo sentia a natureza aguda da crise e as novas lideranças irão enfrentá-la sem quaisquer concessões às políticas keynesianas. Era uma luta de vida ou morte. O capital se levantava com toda a disposição. Sabia que ou fazia isso ou os riscos da crise eram imponderáveis. Fez.  


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