ISTO SIM É UMA VERGONHA!

24/02/2009 19:00

  * Paulo Roriz Scremin

Em pé, defronte à Igreja de Santo Antônio, no centro de Jardim, eu
aguardava o início da manifestação pela PAZ que haveria de acontecer no
interior daquela igreja. Fui, então, surpreendido pela aproximação de
três jovens estudantes do ensino médio, do Centro Educacional New Hope,
que não podiam acreditar que eu estivesse ali, vestindo uma camiseta um
tanto surrada, com furos na gola e na altura do umbigo, ostentando o
desenho de uma bandeira americana no peito. Um deles afirmou: professor,
o senhor vai acabar chamando a atenção de muita gente! Outro, uma menina,
exclamou: Credo, vocês me envergonham! E eu fiquei matutando: será que
ela sentiu vergonha em ver o seu professor com uma camiseta furada ou foi
pôr causa da bandeira americana? No meu tempo de jovem, rapazes e moças
disputavam ferozmente uniformes militares com símbolos americanos. Era
chic vestir uma calça Lee legítima. Mas se a causa da vergonha foram
mesmo os furinhos na minha camiseta, fico mais intrigado ainda! Afinal de
contas, as mocinhas de hoje andam com calças furadas, com enormes buracos
nos joelhos e até mesmo no traseiro...

Logo a manifestação teve início, mas pouca gente compareceu. A maioria
preferiu continuar tomando a sua cervejinha na praça do encontro, local
onde originalmente haveria de ocorrer o evento. O líder do movimento, um
jovem do segundo ano da Faculdade de Turismo, da UEMS, iniciou a sua fala
afirmando que se tratava de uma manifestação pela PAZ e não apenas um
protesto contra a guerra no Iraque. Com voz e gestos delicados, ele
manifestou a sua preocupação com a atual situação da nossa sociedade, com
os crimes, a miséria, a corrupção e conclamou a todos a se unirem na luta
contra estas mazelas sociais. De que forma seria esta luta? Não ficou
muito claro. Acredito que este pessoal continua pensando que protestos e
manifestações pela paz são um meio eficiente para conseguí-la... Que o
diga o povo carioca. Cansado de soltar pombinhos e acenar com
bandeirinhas brancas do alto dos edifícios, acabou solicitando a ajuda do
exército brasileiro para garantir as brincadeiras do carnaval! Pombinhos
verdes da paz...

Contrariando as palavras do líder do movimento, um aluno do primeiro ano
da Faculdade de Turismo leu um discurso cujo conteúdo versava
exclusivamente sobre a guerra no Iraque. Com um sorriso que demonstrava
mais nervosismo e insegurança do que alegria, ele finalmente conseguiu
chegar ao final do texto, atropelando e sendo atropelado pelo mesmo
diversas vezes.

Desde que se tratava de um movimento ecumênico pela paz, todos estavam
convidados! Religiosos de diversas (???) organizações estavam presentes,
inclusive o representante da Associação das Famílias para a Unificação e
Paz Mundial, o advogado e pastor Doutor Simão Ferrábolli. Em seu discurso
ele enfatizou a paz individual como fundamento para a paz familiar. E a
paz entre marido e esposa, pais e filhos, irmãos mais velhos e irmãos
mais novos como condição essencial para a consecução da paz nacional e
mundial. Não se cansou em citar inúmeras frases feitas de conhecidos
líderes nacionais e internacionais acerca da paz. Citou Gandhi, Rui
Barbosa e uma lista interminável de outros nomes importantes, numa
demonstração de grande erudição. Citou até Nelson Rodrigues, o autor de
Engraçadinha, "orgulho" da dramaturgia brasileira. Só não citou nenhuma
frase, nem o nome do Reverendo Sun Myung Moon, o fundador da Associação
que ele estava representando. Embora conhecedor não apenas de muitas
frases fantásticas, pronunciadas pelo Reverendo Moon, mas também do fato
de que o Revendo Moon é o homem público que mais tem trabalhado e
produzido resultados positivos em prol da paz nos últimos 60 anos, o
palestrante omitiu este fato. Preferiu condenar o "fantástico poder de
destruição" do exército americano, enveredando pelo caminho que o tornava
 "simpático e agradável" à platéia presente. Ao encerrar a sua
"performance", o palestrante, vestindo um terno alinhado e uma gravata
impecável, fez uso do idioma judeu para saudar o público presente :
SHALON! Foi bastante aplaudido...

Eu estava lá, mum banco no centro da igreja, com minha camiseta velha e
esburacada, e o desenho de uma bandeira americana no peito...Que
figura!...

Após a fala do aluno do primeiro ano de Turismo, da UEMS, subiu ao púlpito
o pároco de Guia Lopes da Laguna. Este convidou os seminaristas a subirem
com ele. Todos a postos, o pároco tomou a posição da terceira via,
opondo-se tanto a Bush quanto a Saddan Hussein. Ao final de seu
pronunciamento,  não hesitou em afirmar que "a paz será conquistada
somente se acreditarmos em Cristo", e mais, "no verdadeiro Cristo, Jesus,
e não em outros indivíduos malucos que se dizem Cristo".  Ora, o pároco em
questão tem conhecimento pleno que nós, membros da AFUPM, acreditamos que
o Reverendo Moon não é um homem comum, mas sim o Cristo esperado pela
humanidade neste fim de século. Ele tem todo o direito de não querer
acreditar neste fato, de acordo com o seu livre arbítrio. Mas tem, também,
o dever de ser pelo menos "simpático", especialmente quando recebe
convidados em sua própria casa. Infelizmente isso não aconteceu. Lá do meu
banco eu vi quando o pastor Simão Ferrabolli simplesmente baixou a sua
cabeça. Ele, que por dois anos foi o presidente da Associação das Famílias
e que, estejam certos, acredita que o Reverendo Moon é o Cristo esperado,
teve que suportar mais esta alfinetada. E ouvir calado, pois não podia
dizer nada. Ele era o representante da AFUPM e precisava comportar-se com
dignidade. Eu, que não representava ninguém, mas apenas uma posição
pessoal contrária a manifestações anti-americanas hostis, levantei-me e
saí. Fui informado, mais tarde, que subiu ao púlpito um terceiro estudante
da UEMS, que foi bem mais afiado nas acusações não apenas contra a guerra,
mas contra a nação americana como um todo.

Embora negado no início, sabe-se, no entanto, que o principal motivo para
os movimentos pela paz nesta época é a crítica à ação militar americana
no Iraque. Passeatas monumentais tem sido feitas em todo o mundo, com
críticas contundentes ao presidente Bush e ao exército americano. E em
todas elas têm-se presenciado a queima da bandeira americana, valioso
símbolo da liberdade democrática. Gente minúscula, sem nenhum senso de
ridículo, pronuncia palavras de ordem contra o exército americano e ateia
fogo ao símbolo máximo de uma nação amiga, dizendo ser isso um protesto
pela paz. De que tipo de paz estão falando? Ë verdade que os americanos
têm feito muitas coisas erradas. Mas é verdade, também, que todos os
povos do mundo têm cometido erros semelhantes. Talvez em menor amplitude,
não porque sejam bons, mas pela falta de capacidade de fazer maior. Na
África, tribos vizinhas estão em guerra, e a destruição só não é maior
porque não possuem armas de destruição em massa que pudessem utilizar. Se
possuíssem, com certeza seriam utilizadas.

Sabemos que a paz não poderá ser conquistada pela guerra. Mas também é
verdade que um indivíduo mau não irá ceder enquanto não for capturado e
preso, liberando-se o ambiente para uma efetiva ação pacificadora. Ë
ingenuidade demais pensar que poderemos conviver pacificamente com
Fernandinho Beira-Mar em liberdade. Que poderemos permitir que ele viva a
sua boa vida lá no morro, entrincheirado com os seus colaboradores, e que
ele não irá interferir nas nossas vidas. E quanto às boas pessoas do
morro? Bem, elas já estão acostumadas a isto. Elas até gostam e são bem
tratadas pelos traficantes! Sabemos, contudo, que isto não é verdade.
Tanto o povo do morro como o da zona sul desejam que a polícia combata os
traficantes. E quando os tiroteios acontecem, pessoas inocentes são
feridas e até mesmo mortas. Nem por isso os militares devem deixar de
agir. Da mesma forma, quando um povo é dominado e oprimido por um falso
líder, fica impotente para reagir, para reclamar pelos seus direitos. Se
não houver ajuda externa, nada poderá ser feito. Os americanos, que
tinham capacidade, fizeram o seu trabalho. Aos brasileiros cabe a
importante tarefa de lutar contra a fome, as diferenças sociais, o
analfabetismo, a corrupção dos homens públicos e a promiscuidade, que
assolam terrivelmente o nosso povo. Esta é a luta da qual todos nós
devemos participar. Passeatas pela paz, onde a tônica é a mera crítica à
ação americana no Iraque é coisa de gente desocupada, de indivíduos que
"se preocupam com o argueiro nos olhos dos outros e se esquecem da trave
existente em seus próprios olhos" .

As cenas da guerra foram tristes. Foi difícil ver tantas crianças sem
braços ou pernas, dilaceradas pelas bombas americanas. E a imprensa
nacional e internacional, visivelmente em oposição aos americanos, não se
cansou em repetir o quanto quis aquelas terríveis imagens. Isto serviu
para apagar ou pelo menos enfraquecer, em nossa memória, outras imagens
também terríveis, que agrediram o nosso coração. Esquecemos, por exemplo,
do juiz Lalau, alto magistrado que lesou os cofres públicos em milhões de
reais; dos dirigentes da ENCOL, que prejudicaram milhares de famílias que
procuravam adquirir a sua casa própria; de famosos Senadores da
República, envolvidos em atos ilícitos. Esquecemos do médico pediatra,
que abusou sexualmente de várias dezenas de jovens indefesos; da mocinha
que contribuiu para o assassinato brutal de seus pais; do rapaz que matou
a vovó, em busca de dinheiro para drogas. Esquecemos das imagens de um
programa da Globo, que mostrou dezenas de padres católicos pedófilos, que
feriram profundamente o corpo e a alma de centenas de crianças
americanas, provocando traumas que dificilmente serão superados. As
imagens dessas crianças monstruosamente agredidas, contudo, não puderam
ser mostradas. E assim, não puderem ser repetidas diversas vezes, como se
fez com as vítimas da guerra do Iraque. Mas uma coisa é certa: para cada
criança dilacerada pelas bombas americanas, existem dezenas ou talvez
centenas de crianças violentadas apenas pôr médicos e padres católicos no
Brasil e nos Estados Unidos.

Isto sim, é uma vergonha...





* Paulo Roriz Scremin é engenheiro civil pela Universidade Federal do
Paraná e professor pela PUC do Paraná. Recentemente fez um curso de
Pós-Graduação em Administração Escolar nas Faculdades Integradas de

Amparo/SP. 


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