O Sino de Pavlov

24/02/2009 20:08

Marcelo Leite 

Umberto Eco ainda não deve ter pensado em compor um romance com tal título, na linha de "O Pêndulo de Foucault" e da legião de imitações que convocou -mas bem que poderia. É a conjunção fatal de um objeto concreto com algum nome próprio mais que evocativo, prenhe de ressonâncias na história da ciência e da filosofia. De resto, nada melhor para um romance do que ser construído em torno do mistério sobre a existência e o destino de um artefato-chave, de preferência algo pertencente a uma personalidade.

Poucas figuras do mundo da ciência penetraram tão fundo nas camadas do imaginário cultural quanto Ivan Petrovich Pavlov (1849-1936) e a cena de cães salivando automaticamente ao som de um sininho, depois de ensinados a associá-lo com o fornecimento de comida. É a imagem por excelência da força do condicionamento, da materialidade meio obtusa que podem assumir os comportamentos. Houve tempo em que reforços negativos e positivos tinham presença garantida no repertório de conversas de bar, assim como o complexo de Édipo, a dialética de Marx e a evolução de Darwin.
Não faltam cabeças dispostas a questionar a existência dessas três entidades, mas os sinos de Pavlov? Ninguém poderia duvidar deles. Bem, Stephen Black, do departamento de psicologia da Universidade Bishop (Canadá), tanto duvida que veio a público na seção de cartas da revista científica "Current Biology" (
www.current-biology.com) para espinafrar o neurocientista Tim Tully, do Laboratório de Cold Spring Harbor, nos EUA, por ter propagado o "mito" dos sinos de Pavlov.
Segundo Black, não haveria menção a sino algum nas obras do estudioso russo. Campainha, apito, choque, flash de luz, metrônomo -sim, todos esses estímulos de condicionamento teriam sido mencionados nos escritos pavlovianos, segundo Black, mas não os famigerados sinos. Na sua versão, a fonte do erro teria sido um jornalista (quem mais?) da revista "Time", ao dizer que o instrumento sonoro primário havia sido um sino.
Tully replica na mesma seção de correspondência da "Current Biology" que mitologia, mesmo, é dar curso à idéia de que os sinos de Pavlov seriam um mito. Ele afirma que o erro de Black foi considerar unicamente as traduções de Pavlov para o inglês, e não as edições originais em russo.
Embora ele mesmo não fosse versado na língua de czares e bolcheviques e estivesse, portanto, impossibilitado de tirar ele mesmo a teima, Tully recorreu a três neurocientistas russos, sua colega Rusiko Bourtchouladze e os neurofisiologistas Pavel Balaban e Konstantin Anokhin. Todos confirmaram que Pavlov tinha usado sinos, sim, e que o erro iniciador do suposto mito foi do tradutor americano, que teria vertido como "campainhas elétricas" o vocábulo "kolokolcheak", utilizado na época de Pavlov para designar os sininhos que eram usados nas portas das casas.

 

Resumo da ópera, ou do romance que Eco não escreveu: o culpado não foi o primeiro dos dois suspeitos sempre de plantão (o jornalista), mas o segundo na fila (o tradutor).  


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