Parlamentos e parlamentos

24/02/2009 19:18

 Antonio Sepulveda

Escritor

 

Os representantes do povo brasileiro devem estar exultando com a notícia de que, mais uma vez, serão convocados, em caráter extraordinário, para trabalhar durante o mês de janeiro, em troca de um vultoso estipêndio igualmente extraordinário. Essa é uma prática que, aparentemente, se incorporou à controversa rotina dos nossos ilustres deputados e senadores, cujos fins de semana de repouso duram mais do que as semanas de trabalho efetivo propriamente ditas. Além dos 120 dias de folga remunerada por ano, entre férias e recesso, sem incluir os feriados, eis aí a provável causa do acúmulo de pareceres e votações que ficaram para as calendas gregas. E se considerarmos que a dinheirada a mais também beneficia secretários e assessores, ou seja, parentes e cabos eleitorais, é lícito inferir que todos já estejam fazendo planos tão ambiciosos quanto prazerosos para toda essa riqueza complementar que costuma ''cair do céu'' por obra, graça e passividade dos contribuintes.

 

Existem Parlamentos e parlamentos. Ao contrário dos parlamentares brasileiros fartamente auto-supridos de privilégios e mordomias, os legisladores ingleses, que se orgulham de legiferar na imponência da ''Mãe dos Parlamentos'', não possuem escritórios, secretários, assessores, automóveis e residências funcionais custeados pelo Erário; não recebem passagens aéreas gratuitas, salvo a serviço específico do Legislativo, e sequer têm direito a poltronas privativas na Assembléia. Em suma, com essa atitude reta, os membros das Câmaras dos Lordes e dos Comuns refletem a respeitabilidade exigida pelos cargos que lhes foram confiados pelos eleitores; comportam-se, portanto, como lídimos servidores do povo e jamais poderiam ser acusados de parasitas ou aproveitadores.

 

O que nem todos os cidadãos sabem é que cada deputado brasileiro tem o respeitável salário de R$ 12 mil, mas, em cima disso, também recebe mensalmente: auxílio-moradia, R$ 3 mil; consignação para despesas (sic), R$ 7 mil; dotação para o pagamento de assessores, R$ 4 mil; verba de gabinete (sic), R$ 35 mil; e auxílio-transporte de quatro passagens aéreas, ida e volta, entre Brasília e a respectiva sede da alegada base eleitoral. O total dessa orgia chega a R$ 61 mil por mês, por deputado; tamanha aberração, porém, não termina aqui. Os nobres deputados e senadores também fazem jus a 13° e 14° salários e ainda vão embolsar, com a tal convocação durante o recesso de 2003, a polpuda quantia adicional de R$ 25,4 mil. Os membros do Parlamento de Sua Majestade britânica devem estar se remoendo de inveja.

 

O Poder Legislativo, no limiar de um tempo de novas esperanças, mais uma vez nos desonra e nos cobre de constrangimento com mais essa amostra insofismável de desapreço pela ética, diante da indiferença de um Executivo que se elegeu com juras de decoro e probidade, mas que, com tal convocação despropositada, incentiva esse procedimento abominável. Ocorrências dessa gravidade fazem decrescer a boa-fé das pessoas de bem em mudanças positivas na Praça dos Três Poderes. Ao fim e ao cabo, sobra nossa convicção de que os vencimentos dos nossos legisladores foram superestimados quando lhes comparamos os ordenados com aquilo que produzem. É um preço demasiadamente alto a pagar a quem trabalha, quando trabalha, somente três dias por semana.

 

[Publicado no Jornal do Brasil em 31/DEZ/2003]

 


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