Resposta à altura

24/02/2009 19:27

O periódico inglês não está inventando; a reportagem relata uma situação factual

 

Antonio Sepulveda*

Escritor

 

É revoltante que nos tenhamos de resignar com a atonia e a incompetência reinantes, em face das grandes questões nacionais. Parece que abdicamos, definitivamente, a mobilização de nossas forças físicas, intelectuais e morais em prol de um esforço planejado e coordenado de desenvolvimento. Prevalecem as soluções paliativas, as quais, quando muito, minimizam os problemas que corroem as entranhas da nação. É o caso do lastimável cenário atual da cidade do Rio de Janeiro que está a exigir uma fulminante intervenção federal.

 

O presidente Lula da Silva, num rasgo incomum de acuidade geopolítica, disse que a imagem do Brasil no exterior é a mesma do Rio, para o bem ou para o mal. Por que então, diante da péssima impressão sobre nossa cidade passada mundo afora, não se tomam providências drásticas, à altura da situação de calamidade em que se encontra a capital fluminense, hoje entregue à sanha da criminalidade num clima de violência sem precedentes?

 

Graças ao jornal britânico The Independent, a ex-Cidade Maravilhosa passou a ser conhecida, na Europa, como ''a cidade da cocaína e da carnificina''. E não adianta os prosélitos de Garotinho tentarem sofismar com a hipótese de que os súditos de Sua Majestade andam a conspirar contra as pretensões do secretário-consorte de Rosinha à Presidência da República. O periódico inglês não está inventando coisa alguma; a reportagem relata uma situação factual.

 

Entretanto, todas as evidências apontadas pelo jornal são peremptoriamente minimizadas pelo casal governante e por seus fiéis escudeiros. Nada parece capaz de demovê-los da visão paranóica de que as sucessivas administrações de Garotinho e Rosinha foram bem-sucedidas e obtiveram índices aceitáveis de segurança e bem-estar para a população. Negam que o Rio tenha uma taxa de mortes por arma de fogo comparável a zonas conflagradas no Oriente Médio; consideram-se injustiçados, quando os próprios cariocas batizam de ''Faixa de Gaza'' o trecho entre o Aeroporto Internacional e a famosíssima praia de Ipanema; não gostam que os jornais publiquem que os bandidos encurralam as patrulhas policiais ou as põem para correr; afirmam que tudo está sob controle, quando os traficantes de morros rivais fazem guerra por território, trocam tiros entre si e assolam a cidade com rajadas letais de balas perdidas; insinuam que os arrastões nas praias da zona sul não passam de armação dos opositores políticos; recusam-se a admitir que famílias inteiras estejam sendo coagidas por criminosos a abandonarem seus lares; encolhem-se, impotentes, diante das faixas, na zona norte, que zombam das autoridades e do inócuo Estatuto do Desarmamento: ''Não Seja Bobo! A Boca Paga o Dobro!''

 

Sobra-lhes, contudo, o mérito de saberem conviver com o caos, que contribuíram para criar, sem perder a compostura. Por exemplo, o delegado Álvaro Lins, chefe da Polícia Civil, portou-se como um legítimo cabo eleitoral de Garotinho ao declarar, com toda a impudência que caracteriza este governo, que os traficantes subordinados ao falecido marginal Irapuan foram totalmente desarticulados, como se o tráfico tivesse alguma dificuldade em substituir seus líderes com a objetividade de quem não perde de vista os verdadeiros propósitos; objetividade esta que tem faltado, e muito, ao nosso poder político.

 

A derrota fragorosa da relapsa facção de Garotinho na eleição municipal é a resposta dos cidadãos contra a falta de planejamento, a administração incompetente, a ineficiência policial e, principalmente, o discurso populista, cujo único e deslavado objetivo é a vitória no pleito presidencial de 2006.

[Publicado no Jornal do Brasil em 20/OUT/2004]

 


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