Um abrigo insólito

24/02/2009 19:06

Luciano Reis Porto[1]

 

 

São 6:30h da manhã em Itabuna. O tempo está frio, muito frio. A temperatura é de incríveis 18ºC – recorde absoluto nos últimos anos.

Vou pela Av. do Cinqüentenário todo agasalhado, como há tempos não fazia, pensando até nos anos em que sentia na pele o rigoroso inverno europeu. Desço do carro em frente ao Bradesco – o esquecimento em fazer o depósito no dia anterior me obriga a ser solícito desde cedo, já que estarei ausente durante todo o dia.

Empurro a porta da frente, que me dá acesso aos caixas BDN, e entro. Sou tomado, improvisamente, por uma imagem desgraçadamente desoladora, violenta, ofensiva: dois homens, enrolados em cobertores surrados, desfrutam de seus últimos minutos matinais de sono. Imagem violenta. Imagem ofensiva. Porque violenta e ofende, crua e cruelmente, naquilo que há de mais elementar, a dignidade humana. Enquanto realizo os procedimentos modernos, digitais, ultra-rápidos do depósito, não páro de pensar na terrível contradição que se descortina ali na minha frente. O que vejo? Vejo o templo do capitalismo, lugar onde tesouros e fortunas são custodiados, agora abrigar o homem-escória, o homem-resto, o homem-descartável produzido pela racionalidade e lógica desse sistema. Não consigo identificar os sentimentos que me tomam: indignação, raiva, revolta, impotência, compaixão, pena, dó, vergonha... Não sei!

Só sei que vejo e sinto tudo gélido – aliás para os dois ali deitados, tudo é extremamente e perversamente gélido: o tempo é frio, o chão é frio, os caixas são frios, o banco é frio, as pessoas são frias, a vida é fria.

Alguém do meu lado diz com voz indignada: “Pelo amor de Deus! O governo tinha de construir abrigos pra esse povo. E as igrejas onde estão? Antigamente se distribuía café, chocolate quente, sopa, agasalhos...pelas ruas! Hoje em dia....!”

- Oh! Que alma sensível! Que solução magnífica!”, penso eu. Esmolas pra resolver nossas tantas misérias (ou deixar em paz as consciências). Esmolas de direitos e esmolas de cidadania: eis a grande solução do capitalismo neoliberal desumanizante e excludente – esse sistema que produz riquezas incalculáveis, mas que insiste em não dividi-las. E pior: expele impiedosamente pelo bueiro de sua perversidade dejetos de gente sem esperança, sem dignidade, sem sentido pra viver.

A esta gente parece que só resta esperar a gratuidade do Sol, a única quentura de sua vida – justamente como para os dois daqui, que agora já se levantam e se preparam para a vivência de mais uma longa jornada: incerta, instável, insegura, indigna como a sua existência.

Tomara que o Sol, além de dissipar o frio, afaste o torpor de nossa indiferença e nos desperte para a luta.

Numa manhã fria de julho de 2004!

 


[1] Professor de Filosofia/ Estudante de Direito – UESC/ Estagiário Projeto Direitos Humanos da FASE 


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