Wallace e o Darwinismo

24/02/2009 20:46

 Darwinismo: Wallace, o sujeito que Darwin pode ter plagiado para elaborar a teoria da evolução


Paul Spencer Sochaczewski* (Herald Tribune – 21/06/2008)
Em Ternate, Indonésia

Quem recebe o mérito e quem clama o mérito por mudar o mundo?

O dia 1º de julho de 1858 foi um dia modesto em termos de notícias na Londres vitoriana. A rainha Vitória foi andar a cavalo; Madame Tussaud anunciou uma imagem de cera do presidente americano James Buchanan e o navio North Star chegou de Nova York em onze dias e seis horas, um novo recorde.

Entretanto, naquela noite, há 150 anos, ocorreu um evento que, de acordo com o jornalista Arnold Brackman, foi "um dos maiores divisores de água na história da civilização ocidental". Membros da augusta Sociedade Linnean de Londres em Piccadilly ouviram dois fragmentos não publicados sobre a evolução, escritos pelo famoso naturalista Charles Darwin, e um artigo meticuloso escrito por um parente desconhecido, Alfred Russel Wallace.

Nem Darwin nem Wallace estavam presentes. Darwin ficara em sua casa na Inglaterra em luto pela morte de um filho de febre escarlate; Wallace estava na distante Nova Guiné, caçando borboletas e besouros.

O artigo de Wallace formalmente intitulado "Sobre a tendência das variedades de se diferenciarem indefinidamente do tipo original" foi popularmente chamado de "o artigoTernate", pelo nome da cidade da Indonésia da qual ele enviou o estudo para Darwin. O artigo foi a primeira explicação completa do processo de seleção natural, que introduziu o conceito da sobrevivência dos mais fortes.

Para simplificar uma história complexa, como resultado do artigo de Wallace, Darwin foi levado a completar "A origem das espécies", que foi publicado em 1859. Não há dúvidas que veremos uma movimentação da mídia em 2009, quando o mundo celebrará o 150º aniversário da publicação do livro de Darwin.

Wallace, que não tinha consciência que seu artigo tinha sido apresentado na Sociedade Linnean, continuou colecionando dados e escrevendo sobre biogeografia, a biologia da ilha, a mudança das marés e a antropologia do arquipélago melanésio, onde passou oito anos produtivos, porém isolados.

Darwin, membro da elite científica britânica, tornou-se um nome famoso. Wallace, que deixou a escola aos 14 anos e vinha de uma família modesta, acabou como uma nota de rodapé (bastante importante) na história.

Alguns pesquisadores argumentam que foi coincidência científica -que cada homem teve seu momento de luz independente. Tal ocorrência não é incomum; é chamada de descoberta "múltipla": Newton e Leibniz descobriram o cálculo. O oxigênio foi descoberto por Carl Wilhelm Scheel em 1773 e por Joseph Priestly em 1774. A fotografia colorida foi inventada quase simultaneamente por dois franceses. Quatro pesquisadores independentes descobriram as manchas do sol, todos em 1611. Seis homens inventaram o termômetro e nove inventaram o telescópio. E assim por diante.

Ainda assim, um grupo pequeno, porém ativo, chamado Amigos de Alfred, argumenta que foi Wallace que deu a chave da evolução. E que Darwin a roubou.

Darwin era mais velho e mais bem estabelecido. Sem dúvida que vinha pensando sobre a evolução e colecionando dados volumosos, mas até aquele momento ele não tinha publicado uma única palavra sobre o assunto.

Wallace, por outro lado, havia escrito vários artigos sobre a evolução antes do artigo Ternate, inclusive o Sarawak Law de 1855, em que afirmava o princípio hoje o óbvio que "toda espécie chegou à existência coincidentemente tanto no tempo quanto no espaço com uma espécie aliada preexistente".

Será que Darwin plagiou Wallace? A questão pode ser abordada em termos legais ou anedóticos.

O advogado britânico David Hallmark, conselheiro da Fundação Wallace na Indonésia, escreve que como Darwin não tinha publicado e a carta de Wallace estimulava a publicação, Wallace foi primeiro, e Darwin, independentemente do que escreveu, foi o segundo.

Quando publicou seus estudos, Darwin não atribuiu a Wallace o impacto da carta Ternate em seus próprios trabalhos e usou a teoria de Wallace com própria. Aí há um caso de plágio.

Há evidências circunstanciais que Darwin sabia que havia agido mal com Wallace e se sentia culpado por isso. Apesar de obviamente nós não sabermos tudo o que Darwin e seus colegas pensavam ou diziam um ao outro, há uma série de cartas nas quais Darwin refere-se aos eventos como um "assunto deprimente" e seu relacionamento com Wallace como "uma situação delicada".

Darwin admitiu em uma carta ao botânico famoso Joseph Hooker, um amigo que o ajudou a manipular a apresentação da Sociedade Linnean em benefício de Darwin, que havia escrito "metade de uma carta para Wallace para dar toda prioridade ele".

Mais tarde, soando um pouco como Richard Nixon, Darwin escreveu: "Eu nunca furtei nada". Darwin estava claramente dividido entre fazer a coisa correta e chegar em segundo, e declarou: "Parece uma injustiça que eu deva ser compelido a perder minha prioridade de muitos anos, mas não me sinto seguro que isso altere a justiça do caso." 

Então, neste aniversário, eu pondero ética e história.

Não tenho certeza se Darwin plagiou Wallace. O que sei ao certo é: primeiro, a teoria da evolução mudou para sempre a forma como nós vemos nós mesmos e nosso lugar no universo. Foi um dos grandes saltos intelectuais da humanidade.

Segundo: a reunião do dia 1º de julho de 1858 em Londres mal produziu uma marola. O presidente da Sociedade Linnean, Thomas Bell, escreveu em seu relatório anual de 1858 que o ano "não foi marcado por qualquer daquelas descobertas que faz uma revolução instantânea no departamento de ciências no qual ocorre".

*Paul Spencer Sochaczewski é autor em Bangkok que seguiu o caminho de Alfred Russel Wallace subindo o Rio Negro no Brasil e pelo arquipélago melanésio. 


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