Transformando a Sociedade pela Educação da Cultura do Caráter

Sonhos

Roberto Andersen - outubro/2004

 

Índice

Introdução
1. Conceitos preliminares
2. Sonho número 1
3. Rapaz inibido por seu complexo paterno
4. Sonho número 2
5. Jovem que sofria de agorafobia decorrente de medos de sedução
Sonho número 3
6. Jovem que sempre tem o mesmo sonho – paciente piloto 1
Sonho número 4
7. Não achar a porta certa para entrar – sonho próprio
Bibliografia

 

 

Introdução

Conforme a concepção freudiana, o sonho é interpretado como uma realização ou tentativa de realização de alguma tendência reprimida. Sendo assim entendido, sua análise pode servir como subsídio, muitas vezes importante, para o processo do tratamento psicanalítico.

Nesse trabalho faço um passeio por quatro diferentes sonhos: o primeiro é um sonho de um rapaz inibido por seu complexo paterno, que é a reprodução integral do sonho e da interpretação apresentados por Freud em sua obra "A interpretação dos sonhos", na página 397; o segundo é o de uma jovem que sofria de agorafobia decorrente dos medos de sedução e, embora também seja a reprodução integral de outro apresentado na página 393 da mesma obra, procuro ampliar um pouco a sua análise; o terceiro sonho me foi descrito por uma paciente, cujo nome foi alterado, cujo tratamento durou cerca de oito anos, já que apresentava fortes sinais de problemas de relacionamento durante a infância; o quarto é meu mesmo, onde começo a perceber que até mesmo eu, que me considerava o único psicanalista equilibrado e sadio mental e psicológicamente, tenho meus comportamentos neuróticos como todas as demais pessoas do mundo.

Conceitos Preliminares

Para facilitar o entendimento dos sonhos é necessário lembrar alguns conceitos básicos da ciência psicanalítica, principalmente aqueles que serviram de base para Freud durante suas pesquisas. Todos esses conceitos foram tratados em "As Neuropsicoses de Defesa" (1894a) e estão, em síntese, descritas a seguir:

1. Essência e objetivo do projeto original de Freud

A essência de seu projeto combinava duas teorias de origens diferentes: a fisiológica e a anatômica. A combinação dessas teorias tinham como objetivo a re-apresentação dos processos psíquicos como sendo estados quantitativamente definidos de partículas materiais especificáveis. Essas partículas materiais são os neurônios.

a. Teoria fisiológica: baseada na escola de Helmholtz, Freud entendia que a neurologia e a psicologia eram regidas por leis puramente físico-químicas.

b. Doutrina anatômica: Freud procurou mostrar que a unidade funcional do sistema nervoso central era uma célula distinta sem nenhuma continuidade anatômica direta com as células adjacentes.

2. Somas de excitação:

Pode ser entendida como a carga de afeto inerente a um determinado momento psíquico do indivíduo.

3. Energia psíquica:

É a energia dessa carga de afeto, que foi criada para fazer o sistema nervoso voltar ao seu estado original estabilizado. Essa energia é, originalmente, proporcional ao afastamento que o indivíduo foi levado a ter de seu estado funcional estável.

4. Catexia:

A energia psíquica proveniente do soma de excitação catexiza o indivíduo, provocando neuroses ou outros distúrbios delas decorrentes, como por exemplo, as doenças psicossomáticas.

5. Quantidade (Quantum);

Essa carga é entendida como uma quantidade (quantum) mas que não pode ser medida (incomensurável). Esse quantum aumenta, diminui, se desloca e se descarrega. A descarga desse quantum se espalha pelos traços mnemicos das representações do indivíduo de forma análoga a uma carga elétrica que se espalha pela superfície de um corpo. Na obra "As Primeiras Teorias de Freud", de Bernfeld (1944), existe uma abordagem mais aprofundada desse conceito.

6. Qualidade:

Essa carga também traz características de qualidade, ou melhor, diferenças qualitativas relativas às sensações e sentimentos conscientes, independentes da quantidade de energia.

7. Intensidade:

Característica inerente mais da qualidade do que da quantidade, a intensidade mostra a importância psíquica que o indivíduo, consciente ou inconsciente, confere a essa carga de afeto provocadora dessa energia psíquica que foi catexizada.

8. Lei da Constância:

Da teoria fisiológica saiu a Lei da Constância (análoga a Lei da Inércia), pela qual o sistema nervoso se esforça para manter estável (constante) e harmônico o seu estado funcional. Esse esforço é o resultado da ação decorrente de uma energia que foi criada para fazer o sistema nervoso voltar ao seu estado funcional estável", que é a energia psíquica.

9. Princípio da inércia:

Freud desenvolveu a idéia da Lei da Constância a partir do Princípio Geral da Inércia, entendendo que os neurônios sempre tendem a se livrar de qualquer quantum de energia de que possam estar cheios. Quando esses neurônios estão cheios dessa energia estão catexizados.

10. Princípio do prazer (ou do desprazer):

Os neurônios cheios desse quantum de energia catexizada provocam o desprazer até o momento da descarga dessa energia, que é o momento do prazer.

11. Partículas materias especificáveis:

Essas partículas foram definidas por Freud como sendo os neurônios que podem estar em atividade ou em repouso. Quando estão em atividade significa que estão cheios de uma certa quantidade de energia, ou seja, catexizados. Quando estão em repouso é porque estào vazios.

12. Excitação nervosa:

Na época Freud entendeu que excitação nervosa seria a quantidade (quantum) fluindo através do sistema de neurônios.

13. Sistemas neuronais ou instâncias psíquicas:

Freud entendeu, inicialmente que haviam três sistemas neuronais. Um respondendo aos estímulos externos; outro respondendo às excitações internas; e o último respondendo às diferenças qualitativas.

Alguns desses conceitos serão abandonados mais tarde pelo próprio Freud, enquanto outros sofrerão alterações maiores ou menores a depender das evidências encontradas em suas pesquisas e observações, mas todos são ainda de muita utilidade para o entendimento da ciência psicanalítica desenvolvida a partir desse instante.

 

 

 

 

 

 

 

Sonho número 1

Rapaz inibido por seu complexo paterno

            Ele estava passeando com o pai num lugar que certamente deveria ser o Prater (um famoso parque nos arredores de Viena), já que ele viu a rotunda com um pequeno anexo em frente a ela ao qual estava preso um balão cativo, embora parecesse bem mole. O pai lhe perguntou para que servia aquilo tudo; ele ficou surpreso com a pergunta, mas lhe explicou. A seguir entraram num pátio onde havia uma grande folha de estanho estendida. Seu pai queria arrancar um pedaço grande dela, mas primeiro olhou em volta para ver se via alguém. Ele lhe disse que bastaria ele falar com o contramestre para poder levar um pedaço sem nenhum problema. Uma escada descia desse pátio até um poço, cujas paredes eram acolchoadas com uma espécie de material macio, muito parecidas com uma poltrona de couro. Na extremidade do poço havia uma plataforma alongada, e então começava outro poço...

Análise apresentada no livro:

rotunda pode ser traduzida como o traseiro, o balão cativo o pênis e o pequeno anexo em frente à rotunda o saco escrotal.

            A pergunta do pai pode ser traduzida como "Qual a finalidade e a função dos órgãos sexuais?", pergunta que o sonhador jamais fizera a seu pai e que no sonho a colocou nas palavras de seu pai, invertendo o processo. Isso pode significar um desejo seu de fazer tal pergunta ou uma reprimenda a si mesmo sob o aspecto: "Se eu tivesse pedido a meu pai esclarecimentos sexuais..."

            O pátio onde se estendia a folha de estanho parece ser a representação real das dependências comerciais do pai do sonhador, logo, não deve ser interpretado simbolicamente.

            Como o sonhador, ao conhecer a firma do pai, observou que havia trapaça nas negociações, poderíamos ligar essa observação à frase acima, completando-a da seguinte forma: "Se eu tivesse pedido a meu pai esclarecimentos sexuais... ele me teria enganado do mesmo modo que engana seus clientes."

            arrancar serviu para representar a desonestidade do pai nos negócios, mas poderia ser a representação da masturbação, cuja natureza secreta foi representada pelo seu inverso, ou seja, que poderia ser praticada abertamente.

            Também a atividade masturbatória foi deslocada para o pai, da mesma forma que a pergunta inicial.

            poço, levando em conta o acolchoado macio das paredes, é a representação da vagina, assim como o descer da escada significa atividade sexual vaginal.

            O fato de haver um primeiro poço separado de um segundo por uma plataforma alongada representa o fato do sonhador ter mantido relações sexuais durante algum tempo (primeiro poço), tendo-as abandonado por causa das inibições (plataforma alongada), desejando reiniciá-las (segundo poço) com a ajuda do tratamento.

 

 

 

 

 

 

Sonho número 2

Jovem que sofria de agorafobia decorrente de medos de sedução

            "Eu ia andando pela rua, no verão, usando um chapéu de palha de formato peculiar; sua parte central estava virada para cima e as partes laterais pendiam para baixo"(a descrição tornou-se hesitante neste ponto), "de tal modo que um lado estava mais baixo que o outro. Eu estava alegre e com um espírito autoconfiante e, ao passar por um grupo de jovens oficiais, pensei: ‘Nenhum de vocês pode me fazer mal algum!’"

            Análise apresentada no livro:

            O chapéu foi interpretado por Freud como a representação do órgão sexual masculino, com sua parte central erguida e as duas laterais pendentes. Nesse momento não foi feita nenhuma interpretação sobre uma das partes mais baixa do que a outra.

            A interpretação de Freud passada para a paciente dizia que o chapéu, representava os órgãos genitais do marido, os quais ela considerava tão bons que não havia necessidade de temer os oficiais, ou seja, não havia a menor necessidade dela desejar alguma coisa deles.

            Isso teria a ver com o medo de passear desacompanhada devido a suas fantasias de ser seduzida.

            Quando Freud apresentou essa explicação a paciente reagiu retirando, de sua descrição do chapéu, as abas laterais caídas, sustentando nunca haver dito tal coisa.

            Freud insistiu nesse ponto afirmando sua certeza em ter ouvido tal descrição, que a paciente, após um momento em silêncio, tomou coragem para dizer que um dos testículos de seu marido era mais caído do que o outro, perguntando se isso acontece com todos os homens.

            A partir dessa declaração ficou mais evidenciado do que nunca que a representação do chapéu estava correta.

Minha ampliação:

            No caso específico dessa paciente, o simples fato de que, em seu sonho, passava por um grupo de oficiais, já pode significar a vontade reprimida de estar em contacto com homens jovens, de aspecto másculo e perfeitos, já que o termo "oficiais" normalmente traz uma idéia de homens selecionados fisicamente para as atividades militares e que, portanto, devem ser perfeitos.

Quanto a estar segura, alegre e autoconfiante pode representar a sua necessidade de se sentir segura diante daquilo que representa para ela um perigo ou, mais propriamente, uma tentação, já que em situação real essa segurança não existe, mas pelo contrário, existe um verdadeiro medo de não resistir a tentação e aceitar uma sedução qualquer.

Dizer ‘Nenhum de vocês pode me fazer mal algum’, é a inversão do seu verdadeiro desejo inconsciente, que é o seu impulso para o sexo, acompanhado do desejo de exercer o pleno domínio dessas suas vontades.

            A ostentação do chapéu, que foi considerado como o sentimento de satisfação com os órgãos sexuais do marido, pode também significar:

1) a necessidade de mostrar para si mesma que já é casada e que seu marido lhe traz satisfação e assim não precisa procurar prazer com outros homens, ou seja, o chapéu seria um elemento necessário para bloquear o seu instinto natural de procura de novos relacionamentos;

2) o fato de uma das abas estar mais caída mostra, entretanto, que o marido não é a sua satisfação ideal, faltando a perfeição física que tanto deseja para seu homem, deixando uma oportunidade a seus instintos para a qualquer momento vencerem a batalha interna;

3) o chapéu também pode ser interpretado, nesse caso, como suas verdadeiras vontades sendo tolhidas pelo aprisionamento em um casamento que não considera, na realidade, tão perfeito como gostaria, já que o seu instinto natural de procura sexual encontrará sempre um defeito no homem que escolheu para seu marido, que nada mais é do que um escudo contra a vazão expontânea de seus instintos. Nesse caso, o defeito encontrado é a diferença de tamanho entre os testículos.

           

Mesmo com dados incompletos pode-se observar que a paciente desenvolveu verdadeiro pavor de ser seduzida pelo simples fato de ter, inconscientemente, muita vontade de ser seduzida, mas acompanhado de verdadeiro pavor de estar fazendo algo contra os costumes e a sociedade e vir a ser mal vista perante os familiares e amigos.

            A salvação pelo casamento, longe de ser a solução, apenas apresenta um escudo protetor como tábua de salvação, mas o inconsciente sempre encontrará meios para que essa tábua não seja perfeita, dando margem ao crescimento de seu instinto.

 

 

Sonho número 3

Jovem que sempre tem o mesmo sonho – paciente piloto 1

            Quando pequena eu sempre tinha os mesmos sonhos. Eram monstros que tentavam entrar em minha casa e como as portas estavam trancadas eles se metamorfoseavam e passavam ou pelo buraco da fechadura ou pelas frestas. Eu sempre ficava apavorada, sabia que era sonho, e sempre pensava: Meu Deus, como posso me livrar deles? Sei que estou sonhando mas não sei o que fazer!

            Naquela época eu tinha dificuldade de dormir e sempre acordava várias vezes durante a noite e ficava andando pela casa, ia à cozinha, à sala, etc, até conseguir dormir novamente. Sempre no escuro, ou seja, sem parecer ter medo verdadeiro.

            Um dia entraram ladrões em casa, realmente, e eu me lembro de ter escutado barulhos, mas alguma coisa me falou que eu deveria ficar dormindo.

            Ainda na vida real os ladrões fugiram quando meu irmão mais novo, ainda bebê, acordou e começou a chorar.

            Pude constatar isso por ter acordado, junto com meus familiares, logo após esse choro, quando verifiquei o acontecido e eu me espantei com o problema, agora real, e achei que deveria reagir à situação onírica.

            A partir de então, todos os sonhos passaram a incluir minha reação, ou seja, todas as vezes em que os monstros apareciam tentando entrar eu pegava o primeiro objeto e partia para cima deles, e assim eles não conseguiram mais entrar em casa.

            Os sonhos continuavam acontecendo, complementados pela minha reação e não conseguindo mais entrar em casa.

            Como adolescente, mais velha e agora casada e com filhos, os sonhos continuaram os mesmos com algumas modificações, que são:

            No lugar de monstros passaram a ser pessoas normais, algumas conhecidas, outras não.

            O ambiente é sempre a casa onde estou morando, e as pessoas sempre aparecem tentando entrar. Nunca conseguem porque as portas e janelas estão sempre muito bem fechadas e trancadas, e com isso acabam desistindo e indo embora.

            Algumas vezes essas pessoas vem montados em cavalos e ficam no portão. Outras vezes até entram no terreno, andam em volta de toda a casa procurando uma porta ou janela aberta ou frágil, mas não conseguem entrar.

            Normalmente estão lideradas por uma pessoa conhecida. Uma delas era uma antiga empregada, da qual tive que me livrar por apresentar problemas permanentes e por estar ligada a macumba.

            De outra vez foi um antigo caseiro, que também me incomodava pelo mesmo motivo, espalhando seus "trabalhos" por toda a área de minha propriedade.

            Elas sempre parecem estar querendo levar alguma coisa. 

            No dia em que comprei umas vacas, de um sítio nas proximidades da minha casa, o vendedor, um rapaz tipo cigano, apareceu à noite em meu sonho como chefe da gang de ladrões, acompanhado pelos seus capangas. Também ele e seus capangas acabaram entrando no terreno, mas não conseguiram chegar ao curral. Pareciam estar querendo roubar as vacas que ele mesmo havia me vendido.

            Em alguns desses sonhos eu ainda estou fora de casa, andando pelo sítio, quando chegam os ladrões. Nessa hora eu corro para dentro, tranco tudo, começo a ligar para a polícia usando o celular, sempre o celular, e os ladrões acabam indo embora sem entrar.

Minha tentativa de análise:

Sonho de natureza repetitiva, mostrando idéia fixa que, volta e meia, está presente e que pode revelar repressão inconsciente, inclusive de natureza sexual, principalmente na primeira parte, quando ainda muito jovem. Pela repetição do conteúdo, identifica claramente a existência de uma forte neurose.

No primeiro caso, ainda jovem, a casa pode representar o órgão sexual feminino e a tentativa dos monstros, no início, e dos ladrões, mais tarde, de entrar de qualquer forma na casa, pode ser o medo de ser violentada sexualmente.

Em algumas oportunidades ela declarou que, quando criança, morava em bairro pobre, onde era muito comum os meninos procurarem satisfações sexuais com as meninas, ficando impunes em virtude do estado de abandono que as crianças ficavam nas ruas.

Ela, por ser uma das mais bonitas das redondezas, era a preferida dos meninos e a sua vida era uma eterna fuga dos ataques que podiam vir a qualquer hora e em qualquer lugar.

Quando tive a oportunidade de relatar essa minha interpretação ela contestou dizendo que também tinha sonhos sobre o assédio dos meninos, mas era um sonho muito claro, em que ela praticamente repetia o ocorrido, quase identico ao ocorrido, com a diferença de que, no momento real ela sempre fugia, e no sonho, se o menino a atraisse ela se entregava. Ao acordar ficava apavorada com a sua atitude durante o sonho.

Depois contou-me que houve, na vida real, um assalto verdadeiro na casa em que morava, coisa que a marcou profundamente pelo medo, mas que a fez despertar para a reação, passando, a partir daí, a enfrentar os monstros lançando mão de qualquer objeto de madeira, sempre de madeira, que tivesse pela casa.

Ela percebeu que quando utilizava essa arma os monstros paravam de tentar entrar e iam embora.

Essa arma pode representar a propriedade de um órgão sexual masculino, ou seja, ela tendo um homem afastaria os demais, principalmente os que tentavam, violentá-la.

No sonho dos monstros nunca aparecia a situação de entrega, como no sonho mais real com os próprios meninos.

Depois de casada, os monstros transformaram-se em pessoas, sempre ladrões, portanto, passou a identificar mais nitidamente os seus vilões.

Fica difícil relacionar todos esses sonhos com algum desejo sexual reprimido, já que esses vilões eram tanto homens como mulheres, sempre pessoas conhecidas, mas cada uma com uma procedência bastante diferente.

O caso do cigano que vendeu as vacas, por ser um rapaz de tipo atlético e bem apessoado, foi transportado para seu sonho como o líder de um grupo de ladrões que também tentava entrar em sua casa. Nesse caso ele tentava roubar as vacas que havia vendido a ela.

Esse ladrão, como alguns outros, vinham cavalgando, o que pode representar a atividade sexual que estariam desejando, da mesma forma que os monstros da sua primeira fase, que seriam os meninos.

Mas no caso da antiga empregada, o desejo sexual estaria anulado, a menos que se leve em consideração, não um desejo sexual da sonhadora, mas um medo de desejos sexuais das filhas dessa empregada para com o seu marido, que nesse caso faria parte de suas propriedades que estariam sendo ameaçadas.

Em conversa com ela obtive a confirmação de que essa empregada, quando lá trabalhava, trazia suas filhas, todas "galinhas", que procuravam mostrar suas qualidades ao seu marido, o que a irritava muito.

A partir dessa segunda fase do sonho ela não procurava mais um objeto de madeira para afastar os invasores, mas corria para dentro de sua casa e trancava todas as portas e janelas, utilizando o celular para falar com a polícia.

O fato de trancar toda a casa pode representar uma outra forma de evitar a violação, fechando-se em si mesma, ou seja, não se expondo para ninguém e não dando qualquer sinal de intimidade para com as pessoas. Assim ela e a sua propriedade estariam protegidas dos ladrões que na vida real seriam, não mais os meninos que desejavam seduzi-la, mas as pessoas que, de alguma forma, estariam representando um perigo para a sua vida pessoal e principalmenyte para o seu casamento.

O uso do celular para falar com a polícia pode representar o desejo de possuir algo mágico que afastasse com aficácia todos esses intrusos.

O sonho em parte representa a sua vida real, já que seu comportamento normal sempre foi, desde criança e até hoje, um permanente estado de desconfiança de todas as pessoas e medo de que a proximidade ou a intimidade de pessoas conhecidas venham tirar parte do que é seu.

Todos os seus objetos ficam guardados muito bem trancados, tendo que andar com um molhe de chaves imenso para poder utilizar o que necessita durante o dia.

Desconfia de todos os empregados, parentes, amigos e, principalmente, desconhecidos, procurando ter o menor contacto possível com todos e dialogando apenas o extremamente necessário.

 

Sonho número 4

Não achar a porta certa para entrar

            Alguns de meus sonhos mostram o que me parece ser a volta de alguma atividade onde outros colegas participam: ou algum tipo de serviço, estudo ou atividade esportiva; até que em algum momento eu preciso entrar em meu quarto, ou abrir meu armário em um alojamento.

Essa entrada é sempre muito difícil, ou devido à pequena abertura, quase impossível de deixar passar uma pessoa, ou por eu não encontrar a porta certa, abrindo, algumas vezes, a porta de algum quarto desconhecido.

            Num dos últimos que me lembro, para passar pela porta teria que, antes, passar por dentro de alguns caixotes que se encontravam defronte a porta, mas mesmo depois de passar pelos caixotes houve dificuldade de encontrar a porta correta.

            Essa mesma forma de dificuldade já apareceu em outros sonhos, como se para entrar em casa, a abertura fosse tão pequena que eu tivesse medo de ficar preso, ou seja, entalado.

            Algumas vezes percebo que a abertura é incrivelmente estreita, o que me dá medo de continuar tentando, embora o espaço lá dentro seja confortável, mas o que mais me preocupa e me deixa inseguro é se vou conseguir sair desse espaço, ou se ficarei entalado para sempre.

            Além do medo de ficar preso, grande parte do sonho passa em esforço para conseguir abrir o armário correto ou entrar no quarto, sendo sempre um esforço muito desgastante, deixando-me bastante cansado.

           

Minha tentativa de análise:

Tentei considerar a casa ou o armário como símbolos de órgão genital feminino, o que faria com que a porta estreita e o pequeno caixote representassem a fenda vaginal e a dificuldade de entrar no quarto ou de abrir o armário correto poderia representar alguma dificuldade inconsciente em conseguir relacionamentos sexuais satisfatórios.

Fazendo um paralelo com a vida real, embora eu sempre tenha tido muita facilidade em relacionamentos sexuais, sempre esses relacionamentos levaram-me a envolvimentos sérios e oficiais, alguns deles apresentando problemas posteriores de excesso de ciúmes e possessividade por parte da parceira, que prejudicaram muito a minha propria saúde.

A dificuldade de entrar ou sair por esses espaços muito estreitos pode estar relacionado também com alguma dificuldade no nascimento que tivesse marcado minha fase de bebê, ou algum relacionado ao nascimento de meus filhos.

Levando a análise para o relacionamento marido-mulher, o medo de estar preso na entrada de um compartimento pode significar também o medo de ficar aprisionado a um relacionamento que não é o ideal e que pode, pelo "entalamento", me destruir.

Todo o processo desse sonho parece estar relacionado ao casamento, considerando-o difícil, desgastante e de satisfação duvidosa.

 

 

 

             

Bibliografia

 

 

1. Freud, Sigmund. A interpretação dos sonhos (vol.1). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.

2. Freud, Sigmund. A interpretação dos sonhos (vol.2). Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969.

3. Da Silva, Gastão Pereira. Psicanálise dos sonhos. Itatiaia.

4. Grinstein, Alexandre. As normas de Freud para a interpretação de sonhos. Imago.

5. Da Silva, Heitor Antonio. Interpretação de sonhos. Niterói: SPOB, 1998

 

 

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