Ciência descobre fase crítica de aprendizagem na criança entre 2 e 4 anos de idade

12/10/2013 09:48

 

Amigos,

Essa semana obtivemos mais uma confirmação científica importante sobre a necessidade de se ter toda uma atenção especial à criança, durante o seu processo de formação cerebral inicial, principalmente entre os dois e os quatro anos de idade.

Durante esse período a criança está, ou em casa, acompanhado por um dos familiares ou por uma babá, ou está em uma creche.

Respeito a opinião das avós que não querem desgrudar do neto ou que acham uma “atrocidade” levar seu netinho para uma creche, mas a minha opinião é de que o ambiente da creche é o ideal para o seu correto acompanhamento e desenvolvimento, desde que os profissionais que ali trabalham estejam devidamente qualificados para isso.

Os estudos que estão sendo divulgados essa semana mostram que esse período é exatamente quando o ambiente externo exerce a maior influência na formação cerebral da criança e que, se for bem planejado, construirá uma forte base intelectual, uma forte estrutura de controle emocional, psíquico e motor, além de criar a capacidade de julgamento e de entendimento do mundo e do outro.    

Se o ambiente da creche ou em casa for bilíngue, por exemplo, o lucro para o seu desenvolvimento futuro será imenso, já que a criança construirá, em seu cérebro, as estruturas de linguagem dos dois idiomas, como se fosse nativo em ambos.

Mas o mais importante de tudo isso está na identificação de anomalias de desenvolvimento, como o autismo, por exemplo.

Qualquer anomalia intelectual ou motora percebida nessa fase poderá ter seus sintomas reduzidos ou até revertidos, já que nessa fase as intervenções pedagógicas terão muito mais efeito.

Esses estudos estão sendo divulgados aos poucos, parte deles sendo publicados no The Journal of Neuroscience e nos boletins da Brown University e do Kings College,

Para os estudiosos de neurociência e neuropedagogia, esses estudos apresentam uma nova forma de entender como as redes neurais da criança estabelecem, com mais facilidade, nessa fase, programações básicas e essenciais que definirão grande parte de sua vida futura.

Essa observação está sendo feita, principalmente, na formatação inicial das redes que estabelecerão as funções gerais da linguagem e as bases do entendimento e da elaboração da fala no idioma considerado nativo.

Foram analisadas 108 crianças consideradas normais, todas entre um ano e seis anos de idade.

A pesquisa estava voltada para a identificação da distribuição da mielina em seus cérebros.

A mielina é a substância que serve, entre outras coisas, para proteger os circuitos neurais.

Para quem estudou alguma coisa de biologia e neurociência podemos ir mais adiante e comentar que é a mielina quem isola, eletricamente, os axônios, possibilitando mais velocidade na transmissão dos sinais elétricos para as sinapses.

Os resultados mostraram que a mielina só começa a se fixar no cérebro a partir dos quatro anos.

Antes disso as redes neurais estão mais livres para serem reagrupadas, significando que existe uma excelente plasticidade cerebral, permitindo diversos tipos de reorganização.

Nesse período, devido a essa grande plasticidade, essa formatação original pode sofrer fortes influências do ambiente externo.  

Uma das influências muito interessantes será em relação ao estabelecimento do processo da linguagem. Uma criança, nessa fase, convivendo em um ambiente bilíngue, desenvolverá estruturas linguísticas perfeitas para os dois idiomas, tornando-a fluente, como se fosse nativa em ambos. Isso poderá acontecer, também, para o ambiente trilíngue.

Mas podemos ir mais além nesse entendimento, a partir da análise do que ocorre nessa fase, principalmente, agora, para os educadores e estudiosos de psicopedagogia:

É bom lembrar que Henri Wallon conceituou essa fase de sensório motora, quando ela adquire a marcha, ganhando autonomia para manipular objetos e explorar espaços.

Se a criança estiver livre para experimentar suas sensações e seus movimentos, ela construirá redes neurais adequadas ao seu melhor controle motor, incluindo aí a segurança e o equilíbrio.

Se essa liberdade só ocorrer após os quatro anos, após o estabelecimento das bainhas de mielina, a segurança na coordenação motora e no equilíbrio já terão mais dificuldade em ser estabelecida.

Quando Erik Erikson analisa essa fase ele aponta para o momento em que a criança começa a compreender que não pode simplesmente explorar à vontade, mas que há regras a respeitar.

Essas regras são incorporadas à sua programação com muito mais facilidade antes dos quatro anos.

A razão disso também pode estar na mielina que, quando formada, dificulta a alteração das redes para estabelecer novos conceitos.

Erikson também se refere à construção da capacidade de julgamento que aparece nessa fase. E podemos extrapolar daí que, inclusive a construção original de todos os conceitos básicos de pensamento estarão estabelecidos nessa fase.

Quem desejar ler os estudos sobre a fixação da mielina, eles foram publicados pela Brown University em 08/10/2013 em:

https://news.brown.edu/pressreleases/2013/10/language

Recapitulando o que mais interessa aos educadores:

A criança entre os dois e quatro anos de idade deve estar sendo acompanhada e observada de forma muito bem planejada, para permitir a construção correta da sua base intelectual, emocional, psíquica e motora.

O ambiente rico em recursos didáticos com diversidade de formas, cores, movimentos, objetos, sons e imagens facilitará a formatação original de seu entendimento de mundo.

O ambiente bilíngue construirá, em seu cérebro, a estrutura linguística dupla, tornando-a fluente nesses dois idiomas, como se fosse nativa em ambos. Isso poderá ocorrer também para três idiomas.

Mas, volto a reforçar que:

O mais importante de tudo isso está na identificação de anomalias de desenvolvimento, como o TEA (Transtorno de Espectro Autista), por exemplo.

Essas anomalias poderão ter seus sintomas reduzidos ou até revertidos, já que nessa fase as intervenções pedagógicas terão muito mais efeito.

Um forte abraço

 

Roberto Andersen.

 

 

 

A SEGUIR O DEPOIMENTO DE ALEXANDRA CARACOL, DE PORTUGAL, SOBRE A SUA EXPERIÊNCIA COM CRIANÇAS DESSA FAIXA ETÁRIA:
 

Segue, abaixo, o depoimento de Alexandra Caracol, de Portugal, sobre a sua experiência com as crianças nessa fase:

 

Depoimento de Alexandra Caracol, Portugal

Olá. Sim preparo os meninos para tocarem instrumento desde os 3/4 anos de idade. Mas de uma forma lúdica é possível fazê-lo ainda mais cedo. Tenho visto resultados positivos impressionantes que inclusive acabem por tornar os meninos mais concentrados e, consequentemente, mais receptivos à aprendizagem académica.

O amor, a paciência e a resposta à curiosidade das crianças em linguagem (com jogos) apropriada à idade/maturidade de cada criança é a chave para aprenderem de uma forma gradual, natural e agradável.

Muito importante é tentar transmitir ensinamentos, proporcionar experiências que, sempre que possível tenham correlações de forma a fortalecer os neurónios de uma forma lógica. As peças do puzle vão-se juntando e de repente todos os assuntos ensinados/ experienciados fazem luz na cabeça das crianças sem imposições, mas de uma forma muito natural.

O que tenho reparado nessa idade que o Roberto refere é que, por vezes há como que uma instabilidade na criança, mas acabo por tornear a situação através de jogos diversos, dando ritmo intenso na aula e aproveitando a participação de um familiar presente na sala que serve de ponte e ajuda muito no processo.

Vou mais longe afirmando que várias crianças que comecei a alfabetizar (de forma lúdica) desde o nascimento e em fase pré-escolar, incluindo a minha filha que comecei um trabalho ainda ela estava na minha barriga, aprenderem facilmente a ler e a escrever e ficaram receptivas a matérias variadas. Nestes 29 anos de ensino tenho reparado que se conduzirmos bem o aprendizado das crianças de tenra idade elas ficam mais bem preparadas para a vida, vida académica e mais equilibradas emocionalmente. Quanto à linguagem tenho reparado que ajuda em muito no desenvolvimento motor. Está tudo relacionado.

Recentemente tive uma experiência com uma criança que tinha 3 anos quando começou a aprender piano comigo. Era uma criança com dificuldades na motricidade fina, muito instável a nível emocional e com pouquíssima capacidade de concentração, assim como dificuldade em formar frases coerentes, utilizando palavras soltas. No final de um ano de trabalho e após um mês de férias, voltou muito desenvolvida em todas as áreas. O puzzle juntou-se, fez-se luz e ela começou a utilizar de forma coerente todas as coisas que lhe ensinei ou permiti que experienciasse. Só nessa altura (um ano depois) a mãe me explicou que ele tinha sido um menino com problemas a diversos níveis, mas que agora estava diferente. Os pais acharam que como o menino estava melhor já não precisava de continuar o trabalho no piano. Tive pena porque, na verdade aquilo tinha sido o começo e muito ainda poderia fazer-se.

A música tem sido um instrumento espetacular que me tem permitido ensinar/partilhar muitos e variados assuntos e ajudar a ultrapassar deficiências e dificuldades de aprendizagem e de desenvolvimento.

 Sou apaixonada por este assunto, mas ao longo destes 29 anos tenho-me sentido muito só nas minhas experiências e modos de ensinar porque ainda vinga, em muitos lugares e muita gente de que as crianças querem-se é largadas à sua vontade e que têm muito tempo para aprender. Durante estes anos constatei que a fase até aos 4 anos é a melhor para eles desenvolverem capacidades para o presente e futuro. Fiquei muito feliz com a sua partilha porque já me tinha conformado de que iria ficar muito só nas minhas formas de ver e aceitar um aprendizado em fases precoces.

 

Por: Alexandra Caracol

 

 

 

 

 

 


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