Freud Novamente

24/02/2009 20:06

 

PSICOLOGIA

Freud por aí

O médico austríaco volta ao foco das discussões 150 anos depois do seu nascimento. E prova que continua sempre presente…

Fernanda Colavitti e Juliana Tiraboschi
Fotos: Omar Paixão

Nos anos 1980, ele foi dado como intelectualmente morto. Hoje, 150 anos após seu nascimento, não é tão fácil propagar a invalidade das idéias do médico austríaco Sigmund Freud (1856-1939), pai da psicanálise e o grande nome da psicologia em todo o mundo.

Apesar de certos conceitos freudianos estarem largamente ultrapassados, mesmo seus detratores concordam que suas proposições acerca da existência do inconsciente foram precisas. E, com o desenvolvimento cada vez maior da tecnologia aplicada à neurociência, algumas idéias do psiquiatra começam a retomar um pouco da força que possuíam no começo do século 20.

Outras foram enterradas definitivamente. Como a 'inveja do pênis', o conceito de que a vaidade das mulheres era, em parte, uma conseqüência de um sentimento de inferioridade física pela ausência do órgão sexual masculino. O universalismo do complexo de Édipo e a sexualidade infantil também estão 'fora de moda'. 'Não acredito que essas idéias representem um papel importante na psicoterapia hoje', diz Irvin Yalom, professor de psiquiatria da Universidade de Stanford.

 

A tragédia 'Édipo Rei', de Sófocles, batizou uma das idéias mais célebres de Sigmund Freud

Autor de 'Mentiras no Divã', Yalom também escreveu 'A Cura de Schopenhauer' e 'Quando Nietzsche Chorou', best sellers no Brasil. Seus romances misturam personagens reais e ficcionais, e carregam muito de sua experiência como terapeuta. 

'Certos aspectos do desenvolvimento da sexualidade feminina mereceram revisão precoce pelos seguidores de Freud, dentre os quais se destaca Melanie Klein', complementa o psicanalista Luiz Fernando Gallego, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise.

Uma das primeiras escolas da psicologia, quando sta começou a se separar da filosofia, a psicanálise tem como principal ferramenta a associação livre, uma interpretação das palavras proferidas pelo paciente e que remetem a outras, sucessivamente. 'Essa técnica é um instrumento fundamental na psicanálise. Ela é subjetiva, e é este seu ponto forte', diz Plinio Montagna, diretor científico da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. É a partir das associações do paciente que se dão as conclusões do analista em relação ao que se passa em seu inconsciente.

'Para mim, a psicanálise é muito mais uma exploração do aprendizado sobre si mesmo do que um modo efetivo de terapia', opina Yalom. 'A psicanálise nunca estabeleceu sua eficácia terapêutica', completa Frederick Crews, professor da Universidade de Berkeley. 'Uma das evidências disso é o desaparecimento da psicanálise dos principais jornais de psicologia e do currículo das universidades', defende. 'Ela tem sido uma terapia 'tamanho único' para qualquer tipo de 'neurose', termo que não é mais tomado como significativo pelo 'Manual Diagnóstico e Estatístico de Doenças Mentais', a bíblia da psiquiatria', critica Crews. 'A psicanálise tem uma lógica muito bem montada, e suas teorias não são infundadas. Mas nunca foi científica', pondera o psicólogo Gilberto Godoy, professor do Instituto Brasiliense de Análise do Comportamento.

A psicanálise não está ultrapassada. Se ela estivesse, não haveria tanta gente insistindo em afirmar sua morte, e isso há mais de uma década', opina Monah Winograd, coordenadora do curso de extensão em psicanálise e neurociência da PUC-Rio. 'É verdade que as referências à psicanálise vêm diminuindo nas principais revistas internacionais de psicologia, segundo um levantamento de 1998 citado por John Horgan. Mas isto significa somente que a presença da psicanálise é sentida, agora, de modo indireto', afirma.

Espelho da mentea
Freud delineou os processos do ego, superego e ID no cérebro
A representação da mente, desenhada pelo pai da psicanálise em 1933 (ao lado), mostra com as linhas pontilhadas as fronteiras entre o consciente e o inconsciente. Apenas a protuberância na parte de cima corresponde ao consciente. Mapeamentos neurológicos recentes (no canto) mostram algumas correspondências com suas idéias. O tronco cerebral e o sistema límbico, responsáveis pelos instintos, podem ser associados ao ID. As regiões ventral e dorsal frontais do córtex, que controlam a inibição e a autocrítica, podem ser relacionadas com o ego e o superego. Assim como a parte posterior do córtex, que representaria o 'mundo exterior'.

 

 

Se no campo da psicologia a influência freudiana pode estar se tornando mais tênue, a psicanálise vem ganhando espaço, nas últimas décadas, em outro terreno: a neurociência. 'A psicanálise é filha da neurologia, a parte da medicina preocupada com os transtornos do funcionamento do cérebro humano', conta Monah. Após graduar-se em medicina, Sigmund Freud tomou gosto pela pesquisa científica em neuroanatomia. No laboratório de Ernst Brücke, onde trabalhou entre os anos de 1876 a 1882, aprendeu a fazer pesquisa experimental com os sistemas nervosos dos peixes. 'Sua produção sobre as células nervosas da lampreia é um registro da sua atividade como pesquisador nessa área', relata a psicanalista.

Posteriormente, trabalhando no laboratório do neurologista e neuroanatomista Theodor Meynert e fazendo residência em neurologia clínica, Freud voltou-se para os sistemas nervosos dos humanos. 'Ele embrenhou-se nas discussões em torno da localização cerebral dos processos psíquicos envolvidos na linguagem', descreve Monah. Como resultado da experiência adquirida no laboratório e no Hospital Geral de Viena, publicou em 1891 um trabalho sobre a afasia (perda ou diminuição da capacidade de entender palavras).

Um exemplo da relação frutífera entre a psicanálise e a neurociência está em trabalhos como o do neurologista Diego Centonze, autor de uma pesquisa sobre memória na Universidade Tor Vergata, na Itália. Ele afirma, em um de seus artigos, que recentes avanços na neurociência vêm confirmando idéias cruciais de Freud. 'A hipótese de que a origem das doenças mentais situa-se na impossibilidade de o indivíduo apagar os efeitos de um evento adverso está em sintonia com a visão de que muitos distúrbios psiquiátricos refletem a ativação de processos anormais e inconscientes da memória', declara.

Dicionário Freudiano
Alguns dos pontos-chave da psicanálise
1 - Inconsciente 
Tudo que escapa à consciência espontânea e refletida, os processos psíquicos que não podemos invocar voluntariamente. Freud não criou esse conceito, mas deu a um termo já existente um novo sentido. Faz parte do inconsciente tudo o que quebra a continuidade lógica dos pensamentos cotidianos: lapsos, atos falhos, sonhos e esquecimentos.

2 - Ego, superego e id 
O ego é o 'eu', os processos psíquicos conscientes e a concepção que um indivíduo tem de si mesmo. Já o superego é uma estrutura inconsciente e representa as relações de um indivíduo com a família e a sociedade, funcionando como um 'fator externo' dentro de nós que critica os pensamentos e ações do ego. Também controla os impulsos do ID, a 'massa impessoal de energias' que constitui o inconsciente, responsável pelos impulsos.

3 - Sublimação 
Acontece quando uma energia ou desejo, geralmente ligados à sexualidade, são redirecionados para outra área de atividade do indivíduo. Por exemplo, quando alguém canaliza uma decepção amorosa em atividades intelectuais ou artísticas.

4 - Repressão 
Processo mental surgido de um conflito entre o prazer e a realidade. Acontece quando impulsos, desejos, lembranças e emoções dolorosas são 'expulsos' do consciente para o inconsciente, permanecendo ativos e podendo produzir sintomas neuróticos.

5 - Complexo de édipo 
Em uma concepção ampla, o complexo de Édipo diz respeito ao conjunto das relações que a criança estabelece com as figuras parentais, que constituem uma rede, principalmente inconsciente, de representações e afetos entre os dois pólos de suas formas positiva e negativa. O nome foi inspirado na tragédia Édipo Rei, de Sófocles, na qual são mostrados os desejos sexual pela mãe e assassino pelo pai. 

6 - Neurose 
É o resultado do conflito entre os desejos e o medo de punição, por isso é comumente associada a processos repressivos. Pode ser interpretada como o produto de um conflito entre o ego e o ID.

7 - Sexualidade 
Fundamental no surgimento das neuroses. Para Freud, a vida sexual começa logo após o nascimento. Não está ligada aos genitais, mas à obtenção de prazer de diferentes zonas do corpo. Uma criança que se alimenta estaria experimentando uma satisfação sexual, na concepção freudiana.

Fontes: 'Dicionário Enciclopédico de Psicanálise', 'Dicionário de Termos de Psicanálise de Freud', 'O que Freud Realmente Disse' e 'Freud - Vida e Obra'

 

Sigmund Freud claramente ul-trapassa as fronteiras da teoria que criou. 'Ele é muito mais do que o criador da psicanálise. O último capítulo de seu primeiro livro ('Estudos da Histeria', escrito em parceria com Josef Breuer) delineou todos os componentes principais da psicoterapia que seriam desenvolvidos nos 100 anos seguintes', afirma Irvin Yalom.

Porém, como sua teoria foi a que mais cresceu desde o surgimento da psicologia, também foi a que atraiu mais contestação. 'A psicanálise vem sendo alvo de vários questionamentos e cobranças. Vivemos uma certa 'desidealização', talvez decorrente de um período em que ela era vista como uma panacéia para muitos males', interpreta o psicanalista Wilson Amendoeira, ex-presidente da Associação Brasileira de Psicanálise. 'Penso que as críticas atuais se incluam principalmente na crise geral mais ampla que decorre da mudança dos referenciais - os do humanismo pelos do tecnicismo, numa tentativa desesperada e angustiante de acompanharmos a velocidade das transformações do nosso tempo. Assim como de atender às exigências impostas por uma ideologia pautada em um pragmatismo de resultados, eficácia e desempenho.'

Sejam quais forem as razões para as contestações contra a psicanálise, a teoria está longe de desaparecer, assim como a figura de Sigmund Freud está distante de perder sua importância. Porém a psicanálise precisa manter-se sempre dinâmica para continuar sendo aceita, e mais estudos científicos são necessários para que ela possa voltar a alcançar o mesmo status que um dia já teve.

Das teorias à prática
Para entender os conceitos Freudianos
Cura pela fala - O primeiro caso clínico relatado por Freud descreve o tratamento de uma paciente que demonstrava vários sintomas clássicos de histeria. O método consistia na chamada 'cura pela fala' ou 'cura catártica', na qual o paciente discute sobre as suas associações com cada sintoma e, com isso, os faz desaparecer. Essa abordagem tornou-se o centro das técnicas de Freud, na época. Atualmente, não é mais utilizada (o método usado é a interpretação da transferência), mas apresentadores de talk shows, como Jô Soares, ainda se beneficiam dela. 

Repressão - Para Freud, a repressão tem grande importância na formação do psiquismo. As pessoas experimentariam repetidamente pensamentos e sentimentos que são tão dolorosos que não podem suportá-los. Eles não podem ser expulsos da mente, mas são expelidos do consciente para formar parte do inconsciente. Qualquer semelhança com a história de Michael Jackson não é mera coincidência. 

Transferência - Um paciente em terapia irá transferir suas emoções diretamente para outras pessoas de sua vida, como parentes ou o próprio terapeuta. Isso também acontece no dia-a-dia, quando alguém grita com os filhos, mas na verdade gostaria de matar o próprio pai. Por meio desse processo, o paciente pode reconstruir e resolver conflitos reprimidos (causadores de sua doença), especialmente os da infância com seus pais. O cineasta Woody Allen transfere suas neuroses para seus filmes. 

ID - Ninguém melhor para exemplificar essa parte da psique dominada pelo impulso sexual e agressividade do que o rapper norte-americano Eminem. Na maioria das pessoas, o ID é acobertado pelo superego, uma espécie de juiz sobre as atividades e pensamentos do ego. Este faz o meio de campo e controla o modo pela qual nos apresentamos ao mundo.


 

Para ler 
Freud - Vida e Obra, Carlos Estevam. Paz e Terra. 2002 
Freud - Uma vida para o nosso tempo, Peter Gay. Cia das Letras. 2005 
O que Freud Realmente Disse, David Stafford-Clark. Globo. 2005

Para navegar 
www.abp.org.br / www.sbpsp.org.br

 

 

 

Matéria da Galileu 


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