Pedofilia (caso na Argentina)

24/02/2009 20:06

30/07/2004
Artista plástico argentino admite passado pedófilo
Peter Malenchini, que dava aulas de arte, vai à TV confessar abusos

Carlos Ares
Em Buenos Aires


A história dramática comove a Argentina. Os depoimentos crus, corajosos, de frente para a câmera, são desoladores. O relato desse grupo de homens de pouco mais de 40 anos, todos criados e educados no bairro onde residem as chamadas melhores famílias da classe alta argentina, são de partir o coração.

Alguns deles, e outros que ainda não conseguiram levantar o peso da vergonha e da humilhação sobre suas lembranças, todos ex-companheiros e companheiras abusados sexualmente pelo professor que era o mais querido do colégio quando tinham 10 anos, uniram-se para finalmente gritar a verdade aos quatro ventos.

O artista plástico argentino Peter Malenchini, 58 anos, divorciado, pai de quatro filhos, reconheceu as violações e os abusos sexuais, 30 anos atrás, contra seus alunos de primário nas aulas de artes plásticas do Colégio San Juan El Precursor, o mais tradicional do bairro residencial de San Isidro, norte de Buenos Aires.

A confissão de um deles no final de 2001, quando preparavam uma viagem de fim de semana para comemorar o 25º aniversário de formatura no secundário, em 1976, animou outras vítimas a contar o que tinham sofrido e ocultado durante tantos anos.

Acossado pelas denúncias de "violador de menores" que lhe fizeram na inauguração de sua última exposição de aquarelas, em maio passado, e os insultos com cartazes e grafites, modalidade de protesto lançada pela organização Hijos [Filhos], de cidadãos seqüestrados e desaparecidos durante a ditadura militar dos anos 70, para avisar aos moradores onde vivem e trabalham os acusados de violações de direitos humanos, o ex-professor aceitou reunir-se "para falar" com pelo menos duas de suas vítimas e outros colegas, que foram encontrá-lo com câmeras ocultas entre as roupas.

O drama foi revelado a todo o país na última terça-feira (28/07), quando o programa noturno "Código Penal", transmitido pela rede América de televisão argentina, divulgou os primeiros relatos das vítimas e o depoimento do próprio Malenchini, gravado em um bar.

O diálogo foi estarrecedor. O ex-professor, falando na terceira pessoa, admite que "teria matado" quem lhe fizesse isso, diz que teria preferido ser "um dos assassinos" da ditadura e reconhece que deveria estar preso por sua "doença". Como explicação ou desculpa, Malenchini disse que também sofreu abusos quando era criança diversas vezes, "com violência", quando seu pai morreu e sua mãe o mandou para a casa da avó.

Seus ex-alunos se indignaram. "Mas, apesar do que você me fez, eu nunca 'peguei' nenhuma criança", respondeu um deles. E outro acrescentou: "Você diz que conosco foi sem violência porque não nos pegou, mas o domínio psicológico que tinha sobre nós era pior. Você era nosso ídolo, isso é o mais terrível".

As nove vítimas que até agora admitiram ter sido submetidas por Malenchini poderiam ser muitas mais. O professor trabalhou no colégio desde 1968 até que foi demitido, em 1976. Os meninos de suas classes tinham então de 10 a 11 anos. A produção de "Código Penal" apresentará no próximo programa o depoimento de mulheres que também foram abusadas por Malenchini durante as aulas de pintura quando eram meninas.

O colégio, um dos mais tradicionais desse "outro país", como se considera o bairro de San Isidro, onde ficam os clubes de rúgbi e as famílias aristocratas da sociedade portenha, é freqüentado por mais de 600 alunos de primeiro e segundo graus. O jovem professor Malenchini era o ídolo da maioria, todos queriam participar de suas aulas pela descontração, a atitude boêmia e os passeios que ele organizava.

Luis Belgrano, descendente do general Manuel Belgrano, criador da bandeira argentina e herói da independência, pôde finalmente dizer diretamente a Malenchini o que sentia e registrar com uma câmera oculta: "Passei toda a minha vida dizendo: 'Por que não gritei? Por que não o mordi, não o cortei?' Não podia, pela vergonha, pela submissão. E porque eu o queria".

No caso de Tupa Belgrano, como é chamado por seus amigos, os abusos se prolongaram durante quase três anos. "Quando você é criança se sente culpado, e também cúmplice. Eu sabia que isso também acontecia com outros meninos. Quando você vê meninos no mesmo lugar em que você esteve, quando no acampamento os vê sair da tenda onde você esteve, olha para a cara do menino que sai e então sabe o que aconteceu".

Malenchini, dono de uma galeria de arte em Punta del Este, Uruguai, fugiu de sua casa na noite da transmissão do programa. Seu delito prescreveu pela passagem do tempo. Otto Kexel, colega das vítimas, contou nesta quinta a El País que sua primeira reação há dois anos, quando Charly, outro ex-aluno que já morreu, lhes disse que queria contar algo, "foi procurá-lo para matá-lo".

Mas agora ele tenta que pelo menos a lei seja modificada para que esses delitos possam ser investigados e condenados, mesmo que tenham-se passado muitos anos desde que foram cometidos. Os ex-alunos encontraram reações contrárias entre os moradores, que dizem que "isso não pode acontecer em San Isidro".   


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